Em 1998, quando a Hyundai comprou a conterrânea Kia, a dúvida era se as duas marcas sobreviveriam de forma independente. Estão sobrevivendo há dez anos. Hoje, Kia e Hyundai possuem administrações separadas e, no Brasil, as marcas são representadas por duas importadoras concorrentes. O fato gerou uma prática comum entre empresas do mesmo grupo: os coreanos criaram em conjunto um utilitário-esportivo compacto e deram duas roupagens diferentes, uma para cada marca, resultando no Hyundai Tucson e no Kia Sportage.
O Tucson é o importado fora da Argentina e do México mais vendido do Brasil, com 12.345 carros vendidos no ano passado – um fenômeno, caso se considere que o Ford EcoSport, líder no segmento, vendeu 47.029 unidades. O Sportage não teve o mesmo brilho: vendeu 2.180 carros e deve estar saudoso dos anos de fartura, no começo da década, quando foi o importado a diesel mais procurado do País.
Abra a porte e...
Tucson e Sportage são tão parecidos que apontar as diferenças entre eles é como um jogo de sete erros. Fiquemos com duas: a terceira janela lateral é maior no Sportage, que também é 3 cm maior que o irmão no comprimento. No geral, ambos são atraentes e sugerem modernidade – um bom trabalho dos designers. Ao abrir a porta, no entanto, o entusiasmo diminui: o acabamento não condiz com os preços dos veículos. Os plásticos usados no painel e nos revestimentos das portas são tão simples que mascaram a boa qualidade do material. O Sportage vai um pouco além: a trama dos estofamentos é tão trivial que sugere a de um veículo de segmento inferior.
É no interior que as diferenças se evidenciam: o Hyundai abusa dos tons claros e o Kia optou pela sobriedade em tons de preto. O desenho dos relógios do painel também muda de um carro para outro e é mais eficiente no Sportage. Além disso, nas versões com câmbio automático, a alavanca do Hyundai fica num prolongamento do painel, mais perto da mão, enquanto no Kia ela está no assoalho.
Olhos fechados
Como o Tucson e o Sportage são mecanicamente idênticos (embora a Hyundai declare 145 cv para o motor 2.0, 3 cv a mais do que o irmão), o comportamento de ambos também é parecido. A Kia poderia ter criado um acerto diferente de suspensão, o que não ocorreu, certamente por economia de escala.
Dirigi primeiro a versão intermediária do Tucson e deixei o carro com boa impressão quanto à agilidade no trânsito. Poderia ser melhor: o câmbio automático demora a responder e há um hiato na passagem das marchas. Lembra um câmbio manual com embreagem cansada, patinando nas arrancadas. O Tucson melhora no modo seqüencial, mas, ainda assim, não empolga. Honda CR-V e Toyota RAV4 têm caixas bem mais espertas. Saí do Hyundai, entrei no Kia e se estivesse de olhos vendados não saberia diferenciar qual carro estava dirigindo.
A conclusão é que no uso cotidiano eles agradam, embora o nível de ruído seja mais alto do que o desejável. É fácil ouvir o motor funcionar, mesmo nas rotações mais baixas. Em médias velocidades senti nítida rolagem lateral da carroceria nos dois.
Conforto?
Na frente, bom espaço, boa posição ao volante. Já no banco traseiro, meu 1,63 metro não encontrou conforto. A distância para os bancos dianteiros é limitada e o assento é baixo, forçando os passageiros a ficarem com as pernas arqueadas. Só as crianças vão viajar sem reclamar.
O porta-malas do Tucson transporta 644 litros, contra 667 do Sportage, ambos até a altura do teto. Nada justificaria essa diferença, considerando que não há mudanças significativas no formato da carroceria. Nos dois, o vidro da porta traseira pode ser aberto separadamente da tampa.
Ambos são bem equipados desde as versões básicas, mas os preços dão ligeira vantagem para o Sportage em todas as versões. Na configuração básica, a 2.0 manual, o Kia sai por R$ 77.400; o Hyundai, por R$ 79.900. Com câmbio automático, os preços sobem, respectivamente, para R$ 84.400 e R$ 86.420. Nas versões topo de linha, com motor 2.7, câmbio automático e tração 4x4, eles custam R$ 104.900 e R$ 104.970 – a menor diferença dos catálogos.
Qual escolher entre estes gêmeos? Como eles não são siameses, prefiro o mais bonito – portanto, o Tucson que, além da beleza externa tem acabamento um pouco mais caprichado. Há outro motivo: como é o mais vendido entre os novos, tende a se depreciar menos no mercado de usados.
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