Na coluna de 15/01, comentei sobre o despertar das indústrias, que perceberam que o consumidor exige cada mais vez personalização em seus bens, principalmente quando esse bem se chama carro. A necessidade de mostrar aos outros a marca pessoal tem falado alto. E uma das maneiras de se mostrar isto é colocando acessórios.
Os modelos já incrementados de fábrica são cada vez mais comuns: rodas grandes, de 16, 17 polegadas, pneus de perfil baixo, spoiler na dianteira, na traseira, ponteira de escapamento cromada, enfim, uma infinidade de coisas que já podem ser adquiridas prontas. Mas.... O problema é que mesmo fazendo esse ritual de compra, o carro ainda não terá a personalidade do dono. Aí é que começam a aparecer os problemas.
Acessórios de fábrica são projetados sempre com preocupação, por parte dos fabricantes, de serem seguros acima de qualquer coisa. Fabricante nenhum quer arranhar sua reputação equipando o carro com alguma coisa que possa contribuir para ferir os ocupantes em um eventual acidente. Os proprietários dos veículos, porém, na ânsia de querer tornar seus carros diferentes, muitas vezes, esquecem a segurança e ignoram o bom senso. O apogeu dos acessórios extravagantes teve como faísca o filme “Velozes e Furiosos”, que despertou os donos a transformarem seus pacatos carros em bólidos na onda tuning. Da noite para o dia, vimos carros de todas as marcas serem rebaixados, quase arrastando no chão, rodas e pneus que mal cabiam nas caixas, aerofólios traseiros para lá de exagerados, e as indefectíveis pinturas extravagantes, com grafismos de todas as formas possíveis.
Se do lado de fora a extravagância extrapolou o bom senso, do lado de dentro não foi diferente. Relógios espalhados para todos os lados. Quanto mais, melhor! Tapetes de alumínio corrugado, parecidos com piso de ônibus, pomo de alavanca de câmbio cromada, pedais, tudo coberto de metal cromado! Fora, evidentemente, o volante tipo competição.
Embora alguns amantes de veículos esportivos se preocupem mais com a aparência que com a segurança, é preocupante a substituição de itens projetados pelo fabricante do carro - que gastam muito tempo e dinheiro com ensaios destrutivos, buscando evitar a qualquer custo danos físicos aos ocupantes - por outros equipamentos, muitas vezes, feitos por pequenos fabricantes de acessórios que visam somente o lado estético, esquecendo a segurança.
A substituição de volantes originais, criteriosamente desenvolvidos com almofada no centro, com material macio, projetados para deformarem e absorverem o impacto do rosto em um acidente, por modelos esportivos de procedência duvidosa, com raios e centro em metal aparente, é uma temeridade. Assim também como a substituição de pedaleiras recobertas de borracha por modelos em aço cromado e tapetes de alumínio também são um convite para escorregar os pés num dia chuvoso. Sem contar ainda com os relógios colocados em suportes protuberantes por todo o painel.
Tudo isso, querendo os apreciadores ou não, transforma o interior do carro em um cenário temeroso em uma situação de perigo, como por exemplo, em uma freada brusca. A quantidade de elementos pontiagudos e com metal exposto pode ter efeito devastador no rosto e corpo dos ocupantes em um acidente. No lado externo, rebaixar a suspensão e trocar rodas pode tornar o rodar tranqüilo, projetado originalmente pelo fabricante, num objeto de tortura em simples ondulações no asfalto.
Enfim, a personalização sonhada pelo dono pode jogar no lixo anos de desenvolvimento em laboratórios de testes, transformando um veículo primorosamente projetado para proteger seus ocupantes em um artefato que pode tirar sua vida bestamente. Infelizmente, não há muito como controlar os excessos, mas parece que finalmente a moda do tuning irresponsável perdeu a força e a normalidade começa a voltar ao mundo dos carros de rua.
Mário escreve às quintas