Uma amiga minha médica leu a
coluna da semana passada e disse não concordar quando eu mencionei que não se deve fazer objetos que se encaixem perfeitamente nos usuários. Ela fez este comentário porque participa de programas de reabilitação de crianças com problemas motores, que devem obrigatoriamente, ficar encaixadas nas suas cadeiras ou outros artefatos especiais em função de suas deficiências.
Bem, quando eu cito o que é correto e não se deve fazer, sempre me refiro à maioria dos usuários de qualquer que seja o tipo de objeto, principalmente carros. É claro que existem as exceções. No caso da minha amiga, objetos que se encaixem no corpo de seus pequenos pacientes são uma exigência necessária para a sobrevivência dos pacientes. Assim como, em carros de competição ou veículos esportivos, os bancos devem acomodar os pilotos, de forma que não escorreguem lateralmente em curvas de alta velocidade. Mas são casos especiais, assim como alguns outros produtos.
Os exemplos que citei na coluna anterior são de produtos destinados à maioria da população. Infelizmente, usuários fora do padrão de medida são minoria perante o universo geral de pessoas. Os muito baixos ou muito altos correspondem, juntos, a menos de 5% da população incluída naquela média que eu informei de estaturas da escala de percentis antropométricos.
Ao contrário do que possa parecer, tanto designers como industriais, gostariam de poder atender a todo tipo de usuário, mas quando se fala em produção em massa, a coisa complica um pouco.
Ocorre que, no mundo industrial, existe a questão da escala de produção. Para um produto poder ficar barato e acessível, ele precisa ser produzido em alta escala, caso contrário, fica impraticável de se produzir. Então, é preciso se fazer uma escolha, dentro de uma certa porcentagem de usuários possíveis, e se projetar objetos e utensílios dentro desta categoria de estaturas. Mas não pensem que usuários fora de padrão geral de população estão esquecidos. Várias fábricas possuem linhas de produção paralelas às principais, justamente para atender a este tipo de usuário e, também, aos casos especiais, como os usuários portadores de deficiência física. São produções praticamente artesanais, já que não se justifica introduzir automatismo para baixa escala numérica.
Vejam o exemplo dos paraplégicos: todas as fábricas de carro nacionais têm kits de adaptações para eles, com vários tipos de configuração. E, ainda há redução de impostos para amortecer o alto custo destas transformações.
Infelizmente, estes produtos especiais tem custo mais alto pelos motivos que expus acima. Baixa produção impõe custos maiores, mas, pelo menos, os usuários especiais sempre terão a possibilidade de terem suas necessidades atendidas.
Na verdade, excetuando a questão do custo e a realidade do mundo industrial, qualquer designer encara como um grato desafio projetar produtos que atendam a toda solicitação de qualquer usuário. Afinal, um designer existe para resolver problemas, não criar mais, como eu sempre repito aqui.
Mário escreve às quintas