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Colunistas - Mário Valiati

Mário Valiati

Mario Valiati é graduado em design de produtos pela faculdade UniverCidade e mestre em design, com ênfase em ergonomia pela PUC-RJ. Diferentemente dos consumidores comuns e apaixonados por carros, avalia os veículos sob outros ângulos.

As grades ao longo dos anos

03/12/2009 - Mário Valiati

Fonte: iCarros

Um amigo, apreciador e conhecedor de veículos antigos de todos os modelos e marcas, além de leitor assíduo das minhas colunas, pediu para eu escrever sobre as grades dos radiadores, assunto que ele acha bastante interessante. E eu também, embora não seja exatamente um profundo conhecedor de carros do passado.

Acho interessante acompanhar a evolução do desenho externo dos automóveis e reparar como os detalhes foram se alongando e se integrando até formar este bloco compacto que conhecemos na maioria dos carros de hoje.

No início, carroças com motores adaptados não tinham nem teto. Com o avanço dos componentes mecânicos e o aparecimento de motores com refrigeração a água, surgiu a necessidade de se colocar uma unidade trocadora de calor por onde passaria a serpentina na qual água seria refrigerada, os radiadores. Claro, ninguém queria que partes mecânicas ficassem expostas, naturalmente, surgiram as coberturas para enfeitar o componente, as grades.

E, como radiador tinha uma entrada para a água e uma tampa, claro, alguém teve a brilhante ideia de colocar objetos de adorno sobre estas tampas. Algumas com suas marcas e outras com símbolos ou brasões, que simbolizavam alguma coisa na tradição do fabricante.

Independentemente de qual marca surgiu com o enfeite primeiro, o fato é que as grades e os adornos para as tampas, durante muito tempo, foram o “cartão de visitas” dos carros. Um das grades mais célebres e que se mantém até hoje, mesmo que um pouco estilizada, é a do Rolls Royce. Suas formas, evocando a frente de algum templo grego, com o telhado (parte de cima) e as colunas (as lâminas) e a célebre estatueta de uma bela mulher alada, chamada pela fábrica de “espírito do êxtase”, que equipa os modelos da marca desde 1911, são um belo abre alas.

O mais interessante é a habilidade de se manter a essência do desenho inicial e continuar a ter a mesma personalidade. Alguns dos exemplos de marcas que até hoje conseguem manter viva sua identidade nas grades são Mercedes-Benz, BMW, Audi, Alfa Romeo e Cadillac. Além de algumas, como a Bugatti, que ressurgiram após um longo período adormecidas.

A Mercedes é uma das poucas que mantém o adorno sobre uma fictícia tampa de um radiador “virtual”, ostentando sua inconfundível estrela de três pontas. Claro, para que nada a estrague, ela tem uma mola que a faz dobrar para trás, caso alguma coisa esbarre nela.

A BMW consegue sempre, habilmente, inserir sua grade, em forma de dois orifícios levemente quadrados, em todos os seus carros. E o mais interessante que, ao contrário de outras marcas que praticamente copiam a mesma frente em todos os seus carros, ela consegue criar personalidades bem diversas mantendo sempre o mesmo padrão de orifícios frontais, desde esportivos, como o célebre M1, passando por conversíveis e os modelos mais comportados. Difícil isto. A BMW não tem uma estrela como a Mercedes, mas ostenta o símbolo de uma hélice estilizada, herança do tempo que era fabricante de aviões.

Outras fábricas, como a Audi, mudaram de rumo ao longo dos anos, alterando um pouco o formato das grades. A partir do protótipo Rosemeyer de 2000, que adotou uma grade estilizada com inspiração nos modelos de competição, quando ainda se chamava Auto Union e usava uma grade do mesmo desenho, a marca passou a evocar o passado com um outro protótipo, o Nuvolari, de 2003.

Ele inaugurou a era das enormes grades, presentes nos modelos atuais. Em particular não aprecio muito, acho meio abrutalhada, mas voltou às raízes.
Já os carros esportivos, por imposição das formas aerodinâmicas, sempre tentaram esconder a grade, jogando sua abertura para a parte debaixo do para-choque ou, então, no caso dos carros com motor traseiro, colocando os radiadores nas laterais traseiras, para reduzir a distância entre eles e o motor.

Mas a Bugatti, ao ressurgir das cinzas, trouxe o EB 110, um belo carro desenhado pelo Marcello Gandini, com uma grade do mesmo formato que os célebres Bugatti do passado. E perfeitamente integrado ao styling geral.

Enfim, a maioria das pessoas gosta de atribuir um ar humano aos automóveis e vê a frente como se fosse um rosto. A grade seria a boca ou o nariz? O mais evidente são os farois, os olhos do carro. Mas certamente a grade foi e está se tornando novamente, um elemento principal para promover a identidade de uma marca, suas tradições, fracassos e vitórias. Perdoem-me os conhecedores de carros antigos os modelos que, com certeza, esqueci de citar.

Mário escreve às quintas


 

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