No ano passado, comentei sobre
estética e proporção. Falei sobre as possíveis causas do que atrai e do que não atrai no desenho externo de um carro. Claro, sempre bato na tecla que estética não pode ser julgada porque é um fator subjetivo, cada um interpreta o belo do jeito que lhe convir.
Lembrei disso porque nos últimos dias, tenho visto fotos do Chevrolet Agile e, a princípio, o resultado não é lá muito agradável no conjunto. Espero ter de morder a língua quando vê-lo pessoalmente, porque ao vivo é outra história. Entretanto, não muda tão radicalmente a ponto de parecer outro carro, por isso meu medo. Fica complicado eu falar o que considero feio, porque alguém com certeza gostará e outros não concordarão com minhas colocações pessoais.
Existem algumas experiências que alguns autores de livros fazem, no entanto, especialmente em livros de ergonomia, de alguns detalhes que podem enganar nossos olhos de forma que o resultado vira um certo incômodo visual, uma perturbação, que poderíamos classificar como um feio “científico”, se é que isso poderia existir.
Algumas destas perturbações comentei na coluna sobre estética e proporção. Dependendo do lugar onde colocamos algumas linhas retas, estas podem parecer curvas, dando uma impressão estranha. Um bom designer sabe manipular as linhas de um carro de forma que todas elas, mesmo parecendo serem retas, na verdade, são curvas.
Carros com detalhes muito esbeltos e finos, contrastando com outras partes mais volumosas, também causam má impressão. O famoso volume visual, aquele que transmite solidez no desenho. E for muito delicado reverte essa solidez para fragilidade, desconfiança.
Outra coisa que incomoda visualmente é a proporção da altura x comprimento. Um carro baixo, comprido e largo passa a impressão (e fisicamente realmente é) de maior estabilidade e solidez ao rodar. Ao passo que um carro curtinho, estreito e alto, passa a impressão de instabilidade, porque sabemos que tudo que é muito alto tomba fácil. Quem não morre de medo de andar numa destas vans pequenas?
Ok, não vou repetir coluna de estética e proporção inteira, mas voltando a tocar no assunto “feiúra”, gostaria que alguém me explicasse por que toda vez que algum fabricante informa que vai produzir um carro para o "terceiro mundo", o resultado é sempre alguma bizarrice estética? Povo pobre não tem direito ao belo? Feiúra seria uma espécie de castigo por serem pobres? Desenho feio não significa economia; o Tata Nano está aí para provar isso. Não há nenhuma relação de barateamento com estética deficiente.
Não consigo entender, trazendo um exemplo próximo a nós, porque a Renault adotou o Dacia Logan e botou sua marca nele. Há uma certa unanimidade que ele seja o autêntico exemplo do que caracteriza um carro “feio”. Qual a razão do formato “caixa de sapato”? Porque aquelas laterais quase retas até o teto? O que é mais estranho nele é justamente a parte envidraçada e lateral reta até em cima, que causa aquela impressão de vagão de trem, quando visto de frente ou de traseira. Parece que o volume inteiro do teto é maior que a parte inferior do carro, desequilibrando a estabilidade visual, em que o volume maior sempre está embaixo. Se fosse um pequeno fabricante, sem noção de estética e proporção, seria até compreensível, mas dois fabricantes grandes, um que efetivamente criou o produto e outro que colocou seu nome embaixo, não há justificativa.
A impressão que me dá é que, atualmente, vivemos numa ditadura do feio. Poucos lançamentos atualmente me despertam admiração. Gostaria, sinceramente, de escrever uma coluna como a que dediquei ao redesenho do Honda Fit, que ficou um primor. Espero que algum fabricante me desperte a escrever elogios novamente.
Mário escreve às quintas