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Colunistas - Mário Valiati

Mário Valiati

Mario Valiati é graduado em design de produtos pela faculdade UniverCidade e mestre em design, com ênfase em ergonomia pela PUC-RJ. Diferentemente dos consumidores comuns e apaixonados por carros, avalia os veículos sob outros ângulos.

Grande ou pequeno?

19/11/2009 - Mário Valiati

Fonte: iCarros

Estava olhando as notícias hoje (19) e li uma em que comentava a intensificação de fiscalização da polícia do Rio de Janeiro na busca dos devedores de IPVA. Nas blitz, além de comprovar a legalidade da documentação e pagamento dos impostos, comentou-se que também iriam verificar a utilização do cinto de segurança nos passageiros do banco de trás, multando quem não estiver usando o acessório de segurança.

Daí, lembrei de um acidente que sofri há muitos anos na Via Dutra. Um guarda rodoviário entrou na pista, na altura de Itatiaia, sentido SP, mandando parar para passagem de trânsito de uma rua que cortava a rodovia. Estranhei a atitude mas parei e fui freando aos poucos e, quando parei por completo, liguei o pisca alerta para evitar algum acidente. Olhei para o retrovisor e não vi nenhum carro. Mal virei o rosto para frente senti uma pancada muito forte na traseira. Era um caminhão, que vinha em alta velocidade e, aparentemente, não me notou parado na rodovia.

Estavam comigo meu pai ao meu lado, no banco do carona, e minha mãe, no banco traseiro. Todos nós equipados com cinto de segurança. Eu não sofri nada nem meu pai, mas minha mãe levou uma pancada na cabeça, dada pelo bagageiro que se projetou para frente com o impacto da batida. Foi levada para o hospital, mas foi uma pancada sem gravidade, e liberada no mesmo dia. O carro era um Escort Hobby. Houve perda total, ficou totalmente empenado até a frente.

O fato de todos estarmos usando os cintos, certamente impediu coisa pior, mas também o carro, apesar de ser compacto, ter um pouco de lataria na traseira, ajudou também. Depois desta descrição longa do meu acidente, fico pensando na questão do tamanho do carro.

Lemos, todos os dias, reportagens comentando sobre a solução para os grandes centros urbanos, tendo como saída a diminuição do tamanho dos carros. Também assistimos a filmes e mais filmes das montadoras fazendo crash teste com seus minúsculos carros, mostrando o quanto são “seguros” em uma batida, não deformando o habitáculo interno em uma batida frontal.

Ok, não resta dúvida de que alguns carros têm uma resistência impressionante nestas batidas. O problema é que dentro do carro está um corpo de carne e osso. Estes testes simulados, se não me engano, são feitos a 65 km/h. Em centros urbanos, isto é mais ou menos a velocidade de trânsito, mas frequentemente nos vemos andando a 80 km/h, 90 km/h em plena cidade, em grandes avenidas e viadutos. Está na cara que uma batida nestas condições vai machucar os ocupantes, não precisa nenhum especialista em engenharia de pancadas para nos dizer isso.

Então fico em um dilema: o lado social, preocupado com o bem estar da polução dos grandes centros, manda o designer projetar carros pequenos. Além de reduzir o espaço ocupado, também se otimiza o uso do veículo, já que a maioria das pessoas anda sozinha.

Mas o lado da sobrevivência me diz que um bocado de lataria à frente e atrás do carro é mais seguro em qualquer situação. Os estudos que foram feitos no passado, com a substituição da lataria grossa e rígida dos carros antigos pelas chapas finas e deformáveis são uma prova de que tamanho, neste caso, é documento mesmo.

Aliás, já vi alguns vídeos fazendo comparação de uma batida frontal de um moderno carro grande, com um igualmente moderno carro pequeno. O resultado, como era de se esperar, é o carro grande levando a melhor e o pequeno se espatifando. Por mais que os pequenos sejam bem projetados, com dezenas de airbags espalhados para todos os lados, cintos de segurança com pré-tensionadores etc., o fato de ter uma lataria para amortecer os choques ainda é um dos elementos do design de uma carroceria que eu confio que vai me proteger um pouco mais dos impactos.

E claro, jamais ando sem cinto de segurança, nem que seja para ir até a esquina. Tenho este hábito desde antes de dirigir carros e antes de seu uso virar lei. Sempre que sentava no banco do carona ou no banco traseiro, procurava logo os cintos.

Não sei, amigos, este é um tremendo dilema de design. Tamanho é documento sim, mas consciência do coletivo também é importante. Talvez os dispositivos de segurança do futuro – quem sabe algo como uma espuma instantânea que apareceu em um filme futurista, no qual o Sylvester Stallone era policial – me tirem um pouco deste receio de carros muito pequenos quanto à segurança. Por enquanto, ainda ainda prefiro algo um pouco maior para minha sobrevivência.

Mário escreve às quintas


 

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