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Colunistas - Mário Valiati

Mário Valiati

Mario Valiati é graduado em design de produtos pela faculdade UniverCidade e mestre em design, com ênfase em ergonomia pela PUC-RJ. Diferentemente dos consumidores comuns e apaixonados por carros, avalia os veículos sob outros ângulos.

Ideias nem sempre boas

24/09/2009 - Mário Valiati

Fonte: iCarros

Lembro de ter visto em uma revista de grande circulação, uns anos atrás, uma reportagem falando sobre a valorização da mulher na elaboração do projeto de novos carros. Ok, acho certíssimo considerar todos os tipos de consumidores, inclusive as mulheres que, além de boas motoristas, estão cada vez mais comprando carros.

Na reportagem falava sobre adaptação ao gosto do público feminino, como cores, tipo de forração etc., até aí tudo bem. Todo fabricante deve se preocupar em atender o gosto do cliente, customizando a padronagem e oferta de acessórios. O problema foi quando mencionaram que havia até a preocupação com os sapatos femininos, de projetar pedais para poderem ser usados com sapatos altos, aqueles de salto fino.

Bom, não sei se foi empolgação do repórter ou exagero de quem deu a entrevista a ele. Neste caso, além de uma tarefa complicada, ergonomicamente falando, é perigoso! Acho tão perigoso como andar de chinelos. Aliás, andar de chinelos é proibido.

Apoiar os pés sobre pontas altas e finas deve ser difícil, aliás, deve ser terrível. Ainda mais com as pernas inclinadas, tendo de empurrar o pé para frente. A maioria das mulheres que conheço anda com um par de sapatilhas jogadas embaixo do banco traseiro para calçar quando usam sapato alto. É uma atitude sensata e prudente.

Não sei quanto aos meus amigos leitores, mas, normalmente ando de tênis ou sapatos com sola de borracha, que são bem macios e proporcionam um certo “tato” nos pedais. Quando necessito ir a algum evento que me obriga a botar sapato com sola de couro, simplesmente não consigo ter sensibilidade nos pés. É como se não estivesse apertando os pedais.

Necessito de um certo tempo para saber a pressão que devo dar aos pés. Imagine, então, uma mulher com sapato alto? A preocupação que se deve ter com a mulher é aquela que se tem de dar a todo tipo de usuário: projetar o carro prevendo regulagem de bancos e comandos para todos os indivíduos da escala antropométrica, assunto exaustivamente já discutido nas minhas colunas anteriores.

E já que estamos falando de pés e sapatos, um assunto que não tem muito a ver com carro, mas que é pertinente, se refere ao uso de tênis para corrida.
Já havia visto um documentário do National Geographic há um tempo atrás, no qual os médicos ortopedistas tinham feito pesquisas, vários testes e comparações e chegaram a uma conclusão: segundo eles, os tênis com amortecimento, tão confortáveis para se andar normalmente, não são tão bons assim para correr. As cápsulas de ar, espuma ou outros dispositivos de amortecimento para o calcanhar, segundo eles, acabam causando torção lateral dos pés ao mesmo tempo em que obrigam o corredor a apoiar – erroneamente - primeiro o calcanhar no chão, irradiando todo o impacto diretamente para os joelhos e coluna.

Segundo o documentário, após observar alguns maratonistas, que têm o hábito de correr descalços, verificaram que a forma de correr deles é diferente: sem o amortecimento no calcanhar, o corredor tende a pisar com a ponta do pé, fazendo uso do efeito mola dos tendões, amortecendo o impacto primeiro na sola, depois usando o tendão de Aquiles, que absorve a maior parte do impacto e o transforma em energia sob forma de maior velocidade.

Nesta situação, o impacto nos joelhos e na coluna é bastante atenuado. E os médicos comentaram que a sola do pé já tem uma almofada suficientemente adequada para amortecer o impacto, não necessita de ajuda tecnológica. É a natureza mais eficiente que a tecnologia humana!

Ainda sobre este assunto, umas duas semanas atrás, também li uma outra reportagem falando sobre o mesmo assunto e sobre uma nova tendência de tênis, que não usa amortecimento. Na verdade, é apenas uma “pele” de borracha para vestir o pé do maratonista para não queimar a sola no asfalto quente. Segundo esta reportagem, o novo estudo sobre os tênis comprovou que a quantidade de lesões nos corredores é o mesmo, usando tênis com ou sem amortecimento.
Curioso, não? Acredito que essa ideia de amortecimento deva ter partido de uma boa intenção de algum fabricante, foi “comprada” pelos departamentos de marketing e posta em prática de imediato.

Acredito que empresa nenhuma queira, propositalmente, produzir algum produto que cause danos físicos nos usuários. Acontece que muita coisa é por tentativa e erro, com tempo e experimentos, acabam chegando à conclusão do que é ideal. Este tipo de “pele” de borracha para calçar já deve ser um avanço no campo dos calçados esportivos.

Mário escreve às quintas


 

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