Na coluna da semana passada, começamos a falar sobre o design no interior do carro a começar pelo painel, especificamente sobre os mostradores. Os outros vários detalhes do interior só lembramos que existem quando precisamos usar e... não os encontramos onde queríamos.
O mais difícil em qualquer projeto é tornar um elemento de manuseio parecer ter sido colocado naturalmente na posição em que deveria estar, sem que tenhamos de procurar. Creio que todo bom designer que utilize metodologia de projeto consiga fazer isto. Acredito que o pessoal que trabalhe (sério) numa fábrica de grande porte já deva saber mais ou menos onde se postar comandos prioritários pelas experiências obtidas de projetos passados.
O problema todo é que, dependendo da solução, ela pode custar mais cara que uma improvisada. Um exemplo disto são as teclas de acionamento de vidro elétrico e travas. Quando vamos abrir a janela de nossa casa, onde fica o puxador dela? Na própria janela, evidente, não? Da mesma forma, quando precisamos abrir a janela de nossos carros vamos procurar pelo 'puxador' mais próximo possível do vidro. Neste caso, os botões localizados nas portas.
Então, nota 10 para a montadora que coloca os comandos nesta posição e nota zero para montadoras que querem economizar alguns metros de fio e colocam botões no painel ou, inacreditavelmente, entre as alavancas de câmbio e freio de mão. Embora alguns achem que isso não acarrete em problemas, lembremos que o usuário que deseja abrir o vidro, geralmente olha para seu objeto de interesse, na direção do vidro, e depois tem de se voltar para dentro para procurar onde está o botão. Em uma situação de emergência, esta ginástica pode causar confusão ou embaraço.
Um outro item que perdura mesmo com os veículos cada vez mais modernos é o famoso pino de trava da porta. O pino exige contorcionismo do usuário e, no caso de veículos de duas portas, faz com que, às vezes, o usuário se solte do cinto de segurança e se vire inteiramente para trás. Algumas montadoras, de forma elogiável, já incorporam às alavancas de abertura das portas ao próprio mecanismo de trava. Normalmente, deslizando o botão para a frente ou empurrando a alavanca para dentro.
Pode parecer ao leitor que há algum excesso de preciosismo no que escrevo, mas é preciso lembrar que carro é feito para estar em movimento. Qualquer coisa que se projete tem de se ter em mente que decisões sempre têm de ser tomadas rapidamente em momentos de emergência, por isso é preciso que tudo em um carro seja projetado visando reações naturais do usuário.
Ainda em relação aos comandos, quando se prevê a posição do condutor no projeto ergonômico, tem de se levar em conta o alcance dos membros. Sempre lembrando dos usuários mínimos e máximos, já comentado em coluna anterior. O detalhe para este tipo de projeto é que todos os comando essenciais, como volante, alavanca de câmbio e pedais, tem de ser acionados de maneira natural, seja qual for o usuário.
Nosso membros tem movimentos máximos emovimentos de conforto. Braços e pernas, embora possam ser esticados, não podem ficar assim por muito tempo sob risco de fadiga muscular. Ao volante, os braços devem ficar levemente flexionados, assim como as pernas devem estar relaxadas e, quando os pés estiverem apoiados no chão, as coxas não devem exercer pressão excessiva sobre o banco para não prejudicar a circulação, causando dormência.
Então, algumas posturas que alguns assumem ao volante, como se estivessem no comando de um carro de corrida, banco todo para trás, braços esticados, são a forma mais rápida para se cansar rapidamente.
É preciso entender que um carro de corrida tem seu projeto todo voltado para desempenho e velocidade e não exatamente o conforto de quem vai pilotar. O carro geralmente é bem baixo por causa da aerodinâmica e a ergonomia fica sacrificada em função disto. Não é o caso de um carro de rua, no qual o conforto e a segurança do condutor ficam em primeiro lugar.
Comandos que estão no volante, como volume e comutador de estação de rádio, são bem-vindos, desde que não sejam em profusão. Botões em excesso, bem localizados ou não, na área de acionamento de emergência levam à confusão do mesmo jeito.
Projetos derivados de carros de competição, dependendo de como sejam, também são bem vindos. O exemplo mais recente são as alavancas de câmbio atrás do volante. Numa competição é essencial que a troca de marcha seja feita em milésimos de segundo. Não é o caso de um automóvel de rua. Porém, neste caso, para o motorista comum, a utilidade é que ele fique mais tempo com a mão no volante, melhorando sua direção em uma situação de emergência, mesmo que tal recurso geralmente seja apenas perfumaria, já que a maioria dos carros que conta com estas borboletas possuem câmbio automático, que dispensa seu uso.
Outros comandos que também podem levar à confusão são botões de aumento e diminuição, como volume de rádio. Embora botões de toque em alguns rádios demonstrem uma aparência de modernidade, em algumas ocasiões seu acionamento nos causa confusão e temos de obrigatoriamente olhar para eles para não apertarmos o botão errado.
Uma solução é projetar botões redondos, de acionamento giratório, que são mais intuitivos. Ou então, quando se quer evitar que o usuário confunda qual botão deve usar, dimensiona-se cada um com um tamanho e formato diferente para que se consiga decorar qual é qual somente com o toque da mão, sem ter de desviar os olhos da estrada.
Como se pode ver, as variáveis de projeto são muitas, mas o que determina como e onde se usar um ou outro comando são os testes. Só mesmo observando o comportamento de um usuário destreinado pode-se constatar o sucesso ou fracasso de um projeto.
Mario escreve às quintas