Logo que entrei como designer na empresa em que trabalho, o gerente e engenheiro da fábrica na época, meu parceiro de projetos, me deu alguns valiosos conselhos na arte de projetar. Um deles foi: “não basta ser forte, tem de parecer ser forte”. Quando se projetam produtos, o fator cognitivo deve ser levado em conta; de acordo com sua função é preciso fazer que este produto transmita sua utilidade, seja na resistência ou na aparência.
O produto automóvel, no quesito engenharia, melhorou muito nos últimos tempos. As tecnologias envolvidas nos processos de fabricação, as pesquisas da engenharia química que criaram materiais incríveis em todas as peças que compõem um carro e a turma da engenharia eletrônica, responsável pelos avanços no gerenciamento de todos os sistemas, todos eles contribuíram para o automóvel se transformar em um produto notável.
Nunca os automóveis estiveram tão resistentes como estão agora. Lembrem-se, há pouco tempo, as trocas de pastilhas de freio, pneus óleo, etc., eram com baixa quilometragem. Hoje em dia, quase não se fura mais pneu e eles agüentam 30 mil, 40 mil km, pastilhas de freio que chegam quase aos 50 mil km, os lubrificantes estão mais eficientes e duradouros em todas as faixas de temperatura. Também os plásticos de hoje em dia estão muito sofisticados, são muito resistentes ao tempo e aos choques, além de durarem mais. Enfim, os carros atuais requerem bem menos manutenção e estão mais duráveis.
Porém, quando entramos em carros mais acessíveis, que vão dos 1.0 até alguns 1.6, todo esse avanço tecnológico que a turma da parte técnica conseguiu evoluir ao longo dos anos não aparece de forma tão evidente assim. A simplicidade mais que franciscana de alguns modelos dói nos olhos, assim como a aparente fragilidade dos componentes – embora estes não o sejam -, a ponto das pessoas duvidarem de que eles tenham alguma resistência.
Então, agora adaptando a frase que mencionei logo no início, não basta ser bom, tem de parecer ser bom!
Lembro que quando a GM lançou o Celta, em 2000, fiquei bastante decepcionado com o painel e interior, a simplicidade extrema e a total falta de algum atrativo saltavam à vista.
Agora, parece que boa parte dos fabricantes seguiu o mesmo exemplo. O novo Gol, tão bem acertado na estética externa, ganhou um “paredão” de plástico simples como painel, assim como o Logan e seu “primo” Sandero. Desenhos resumidos ao mais elementar e simples possível, sem nenhum detalhe atraente. Estou só citando estes porque são os que me vêm à mente neste instante.
O mesmo vale para o resto do interior, painéis de porta, tecidos dos bancos etc. Embora um belo styling externo seja importante, é no interior que o usuário interage com o seu amado carro. O interior tem de ser agradável, acolhedor, gostoso de ver e tocar.
Lembro sempre do Escort Hobby 1.0 1995 que eu tive. Era o modelo mais barato do País mas, para o padrão de hoje, seria quase um carro de luxo! Acabamento impecável, painel muito completo e bem desenhado. Simples, não tinha vidro elétrico, travas nas portas, ar-condicionado nem direção hidráulica, nenhum mimo, mas impressionava a todos e a mim!
É evidente que este empobrecimento é proposital, para ficar bem claro que há uma separação de classes. Quem compra um carro acima de R$ 60 mil não quer que ele se pareça com um carro popular, então, os mais simples têm de parecer ser mais simples. Tudo bem que haja alguma simplicidade, mas não a ponto de depreciar o produto.
Escuto sempre pessoas reclamando de que o interior dos seus carros populares são inteiramente de plástico, como se algum outro não tivesse este material em seu interior. Neste caso, o “plástico” é sinônimo de mal feito, simples, banal, culpa de um desenho simplificado e pobre.
O que custa projetarem um painel e interior com um desenho um pouco mais elaborado, com capricho? Não vai aumentar o custo de um molde. Há tantas soluções que podem ao mesmo tempo serem baratas, com aspecto simples e agradável visualmente.
Um carro, por mais simples e barato que seja, é uma conquista para quem o compra. Dessa forma, é bom que, de vez em quando, os dirigentes das montadoras se lembrem que estes carros custam muito dinheiro para quem compra mesmo os mais simples.
Mário escreve às quintas