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Colunistas - Mário Valiati

Mário Valiati

Mario Valiati é graduado em design de produtos pela faculdade UniverCidade e mestre em design, com ênfase em ergonomia pela PUC-RJ. Diferentemente dos consumidores comuns e apaixonados por carros, avalia os veículos sob outros ângulos.

O bom design é caro ou barato?

23/04/2009 - Mário Valiati

Fonte: iCarros

Você está caminhando em um shopping, de uma área nobre, quando vê aquela loja suntuosa, aparência moderna, vendedores finos e dá aquela olhada na vitrine. Só produtos lindos, maravilhosos, esteticamente inovadores e... caros! Quando entra na loja, pergunta ao vendedor qual a razão de custarem tão caro, a resposta é sempre a mesma: “ah, senhor, são objetos de design, projetados por designers famosos”.

Pois é. Sempre me perguntei porque qualquer coisa que tiver aquela aparência característica de que foi feita por um designer, geralmente formas curiosas e diferentes, custa caro. Qual seria a razão? Materiais mais nobres? Processos de produção mais sofisticados? Nome de algum designer famoso como grife? Provavelmente, todas estas razões e mais outras também.

Um ingrediente, que é atribuído ao design “carimbado” com boa procedência, é fazer dele quase uma obra de arte, vendida em galerias. De fato, um bom produto - depois de feito o devido sucesso perante o público e comprovada sua eficiência e vantagem sobre qualquer outro similar - certamente merece um lugar de destaque em museus e galerias. É um mérito, um prêmio ao bom design.

Na verdade, boa parte dos produtos com jeitão de “bom design” são vendidos em locais que vendem também mobiliário para classes mais bem favorecidas como objetos de decoração. Sofás, cadeiras, móveis em geral, que custam muito caros são o paraíso destes objetos “especiais”.

Mas se pararmos para pensar na real missão de um objeto de design, seu local de destaque e custo deveria ser o extremo oposto. Quase toda semana eu sempre direciono o leitor para a primeira coluna que escrevi, na qual faço um breve resumo da real missão do design.

Uma das razões do surgimento do design, sua filosofia e métodos, foi facilitar o processo de produção em massa para que mais pessoas pudessem comprar objetos. Como até uma criança sabe hoje em dia, quanto mais se produz, mais barato fica um produto.
Obviamente, o objetivo é que muitas pessoas pudessem desfrutar das benesses de um bom produto a preços acessíveis. Isso até foi seguido por um bom tempo, mas de umas décadas pra cá, o design passou a ter conotação de um evento superior, algo para poucos. Virou “chique” fazer e vender design.

Então, objetos que originariamente deveriam atrair pelo bom desenho, funcionalidade e bom custo, tiveram adicionados a ele materiais exóticos e caros, que servem como motivo para custarem absurdamente caros e distorcerem totalmente a nobre utilidade do design, como ele foi originalmente concebido.

No mundo do automóvel, temos alguns exemplos diferentes e situados no extremo oposto. Primeiro a indiana Tata, que anunciou um produto de baixíssimo custo, o Nano. O primeiro carro a custar realmente pouco – US$ 2.500 - para atingir as massas.
Dentro de todas as limitações possíveis de um projeto barato, é um belo projeto. Bela estética externa e até interna, claro, com limitações extremas, desempenho apenas razoável, mas cumpre a missão de levar as pessoas menos favorecidas um meio de transporte individual. Isso é a filosofia do design ao pé da letra.

Do lado oposto, temos o Smart. Sem dúvida, um carrinho sensacional, um belo brinquedo, muito badalado, estética bem resolvida e uma marca de muito peso por trás, a Mercedes-Benz.
Vendido aqui por preço de carros de categoria superior, está acima das possibilidades até mesmo da classe média. É um produto reservado para poucos.

E o que ele tem melhor que todos os outros carros? Espaço? Não. Dirigibilidade? Certamente não tanto quanto outros carros. Desempenho? Também não. Os painéis de carroceria de plástico? Embora sejam práticos, não o faz melhor que outros carros baratos. O que, então, o faz ser tão caro - além dos vários dispositivos de segurança eletrônicos espalhados que monitoram todos seus movimentos -, que seu valor chegue até ser mais alto que carros de luxo com muito mais conforto e desempenho? Novidade, exclusividade? Talvez sim.

A explicação talvez esteja na minha coluna anterior, na qual comento sobre o posicionamento social que os produtos nos proporcionam. Quanto mais caro e exclusivo, mais status tenho.
Bom, parece que a tendência de transformar bela estética em produto caro e botar um título de design como atrativo virou mania em todas as camadas de produtos. Mas, a maioria dos consumidores, o povão, sabe discernir o produto bom e de preço acessível, relegando excentricidades a nichos, que continuarão a ser caros e vistos como obras de arte, não como objetos de design.

Mário escreve às quintas


 

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