Sempre que comento sobre design de carros nesta coluna, o assunto, freqüentemente, é sobre estética. Mas o mundo do design vai além disso. Bem além. Na verdade, estética é a parte que menos se tem trabalho em um projeto de design automobilístico. A maior parte de um projeto está onde os olhos do consumidor não podem ver.
Uma das atribuições de maior responsabilidade de um designer é ter uma visão além do produto propriamente dito. Ele precisa pensar na planta da fábrica que vai produzir seu produto, nas etapas de fabricação, na quantidade de operações, os recursos técnicos que terá à disposição e no tipo de material que poderá utilizar.
Em uma fábrica, cada operação que se tem de executar custa dinheiro, a tal “hora/homem”. Quanto mais operações tiver um produto, mais caro ele vai ser. Quanto mais componentes um produto tiver, igualmente custará mais caro. Então, esta alquimia - menos componentes/menos etapas de fabricação -, é determinante para que o produto chegue ao consumidor mais barato.
Para o designer, em conjunto com o departamento de engenharia, não é uma tarefa fácil. Simplificar um produto significa ter de pensar e criar, e isso, muitas vezes, vira uma sucessão de tentativas frustradas até se chegar ao desenho ideal.
Fazer um produto com menos componentes, ou quem sabe, um único componente, é uma façanha. Um exemplo de produto simples, feito em uma única peça é um clipe para pender folhas de papel. Conseguem pensar em algo mais simples? Outro produto que anda fazendo um tremendo sucesso com consumidores e, garanto, também deve estar fazendo a alegria do fabricante, é o iPhone.
Um telefone celular comum tem vários componentes mecânicos, como teclas, que, com auxílio de robôs ou não, levam tempo para montar. O iPhone tem uma única tela de vidro que faz o papel de teclas. Nem menciono o fato da que tudo é feito por contatos sensíveis ao toque, informática no auge do estado da arte, complexidade técnica etc. Mas, efetivamente, para se confeccionar um iPhone precisa-se de menos tempo e componentes que um celular comum. Deve custar muito barato à Apple fabricá-lo. O custo maior se deve ao trabalho intelectual da tecnologia de software e, evidentemente, o fabricante também deita nos louros do sucesso e cobra mais pelo aspecto novidade.
Então, voltando ao mundo automobilístico, assim que se decide como será o desenho do carro, o pessoal de projeto tem de fazer projeções de quantas etapas serão necessárias para fabricá-lo e montá-lo. Nesta hora é que é importante tentar simplificar as peças e encaixes. Pensar se é mais barato parafusar, colar ou só encaixar etc.
Operações, tais como montagem de painel e seus componente, ou do motor, têm de ser cuidadosamente pensadas para que fluam na linha de montagem sem que o operário ou robô sintam dificuldades para encaixá-lo.
Umas das técnicas é montar os subconjuntos de cada parte em linhas de montagem paralelas, de forma que depois é preciso só encaixá-lo no local, com já é feito com os conjuntos de suspensão, motor, portas, bancos e painel.
Qualquer simplificação de componentes nestes subconjuntos significa uma redução de custo significante. Basta imaginar uma imensa variedade de subconjuntos com menos peças para entender o que isto significa. O consumidor comum não vê nada disso, mas, sem dúvida, vê direitinho o preço que vai custar para ele. E, nesta hora, um bom projeto de design vai custar bem mais barato.
Mário escreve às quintas