Sempre tento ficar atualizado a respeito do que se faz em design para poder auxiliar meus alunos nas aulas de projeto de produto. Quase todo mês, compro algum livro ligado à design, seja de produto ou dedicado ao gráfico. Alguns destes livros são coletâneas de designers de renome internacional.
Um que comprei recentemente foi do designer francês Philippe Starck. Ele é especializado em design de mobiliário, artefatos para decoração e eletrodoméstico mas, volta e meia, alguém o convida para fazer o design de algum artefato de outro gênero como... carros e motos.
Bom, vi uma moto e um scooter que ele projetou para a italiana Aprilia. Confesso que não me entusiasmei muito, mas é opinião estritamente pessoal, já que estética é fator subjetivo. A moto ficou com um desenho muito simples e despojada e o scooter com jeito de bichinho de pelúcia.
Além do Starck, há outros designers famosos de outras áreas que enveredam para o mundo dos carros e também não são muito bem sucedidos. Lembro que também folheei um destes livros de melhor design do ano e constava lá um carro feito por um designer badalado, que agora não me vem à mente. Estética absolutamente banal, parecia um daqueles carros do bloco oriental da década de 60.
O leitor já deve estar pensando que estou achando estes designers ruins, mas não é isso. Eles são realmente muito bons e toda a fama, obviamente, não veio de graça. Eles têm talento especial e batalharam pelo seu espaço. O problema de qualquer profissão, e o designer não escapa disso, é a especialização.
Ok. Todo aluno que sai da faculdade de design está apto a projetar um produto. Certo, porém, como em toda profissão, ele aprende o básico e depois tem de buscar mais conhecimento, possivelmente para descobrir se tem talento para se destacar em algum tipo de produto ou setor.
O design automobilístico - embora atraia a todos pelo fato dos carros estarem ao nosso redor o tempo inteiro -, é muito especializado. É preciso, literalmente, respirar automóvel para poder projetar bem. Trabalhar no meio de carros, ter paixão, vontade de desenhar, criatividade, mesmo que às vezes o resultado não agrade a todos. Tudo isso faz parte.
Há muitos elementos em um carro que tornam necessário o conhecimento de novas tecnologias por parte do profissional para poder transmitir no design a modernidade e otimização do produto. É preciso conhecer bastante de mecânica também, embora não seja ele exatamente quem vá projetar, para saber onde pode e deve colocar cada componente.
Detalhes como tecnologias de plásticos, metais, vidros, tecnologia de montagem, pintura, linha de produção, tudo é tão vasto e se moderniza a cada dia, que praticamente que não há como se intrometer em um meio desses sem um longo e intenso aprendizado. E aprendizado continuo.
E, no caso do Starck, ele tem um estilo de design bem humorado, sempre usa figuras humanizadas para fazer seus objetos de design. Isso, em decoração de interiores e objetos, é bem legal e neste ramo ele é imbatível. Mas levar este design meio brincalhão para o ramo do automóvel esbarra naquele dilema do status, já comentado em outras colunas: quem vai querer comprar um carro ou moto com jeito de bichinho de pelúcia?
E outro problema do designer que não tem intimidade com o mundo das quatro rodas é que, geralmente, o resultado do projeto é algo banal, simples demais, muitas vezes remetendo soluções de design há anos abandonadas pelas grandes fábricas.
Talvez um dos raros exemplos de designer total seja o Giorgetto Giugiaro. Desde que criou sua Italdesign, em 1969, sempre buscou a variação. A qualidade do seu design chegou até as massas, sim, massa comestível mesmo! Projetou um tipo de desenho que tinha como característica reter mais o molho. Fora que projetou câmeras para a Nikon, iates, garrafas de água etc. Um verdadeiro designer total! É uma das exceções, mas o carro ainda é, literalmente, o “carro chefe” do seu estúdio.
Mário escreve às quintas