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Colunistas - Mário Valiati

Mário Valiati

Mario Valiati é graduado em design de produtos pela faculdade UniverCidade e mestre em design, com ênfase em ergonomia pela PUC-RJ. Diferentemente dos consumidores comuns e apaixonados por carros, avalia os veículos sob outros ângulos.

Questão de gosto

23/10/2008 - Mário Valiati

Fonte: iCarros

Sempre que um novo carro é lançado, meus amigos pedem para que eu faça algum comentário sobre a sua estética. Digo o que gostei ou não e comento os erros, quando há algum. Porém, quase sempre, algumas pessoas ficam um pouco decepcionadas com algum comentário que faço, dizendo que gostaram de tal estética e não concordam com uma ou outra observação. É natural e pessoal.

Se os leitores lembrarem, na primeira coluna comentei sobre design (projeto) e styling (estilo, estética). Uma vez que as necessidades do projeto tenham sido atendidas, o que sobrar é estética, certo? No caso de um carro de rua comum, geralmente sim. A parte visual, a lataria e tudo mais o quê nossos olhos vêem, eliminando as partes funcionais (elementos aerodinâmicos, tampas, portas, cavidades de rodas etc.), é um quadro em branco para o designer fazer o que bem entender. Ali é puro styling, nada que vá fazer diferença no funcionamento do carro.

Neste caso, o que reina é o bom (ou mau) gosto e a visão espacial de quem está com o lápis (ou mouse) na mão.
Então, fica um pouco difícil de julgar algo subjetivo, sem funcionalidade, quando este não apresente alguns erros de, digamos, “concordância” de linhas, fluidez ou proporção.

Um exemplo nestes erros são frisos e borrachões que contornam toda a carroceria. Um designer com boa visão espacial tende a fazê-los harmonicamente, mantendo o trajeto do friso ou a largura do borrachão em todo o perímetro do carro, dando impressão de continuidade. Um outro erro comum, já citado por mim na coluna que comentei sobre proporção, é não saber o que fazer com rodas muito pequenas em um carro relativamente grande. Se não houver talento para contornar esta limitação, geralmente ampliar o arco da roda e contorná-los com grossos frisos, vemos uma enorme área de chapa lisa com minúsculas rodinhas enfiadas nela. E temos alguns casos em nosso mercado.

Quando aos adornos, o que pesa é o gosto pessoal do designer, a moda da época - parece que a moda atual são os cromados em tudo onde puder colocá-los – e questões da cultura local.
Em um carro recém lançado é difícil haver discordância de linhas, visto que, quando o projeto é feito, pensa-se nele como um conjunto monobloco sem partes separadas.

O mais comum e lamentável de se observar são os casos de redesenho, quando um designer altera o projeto original de outro designer. É muito difícil sair coisa boa deste casamento de estilos e personalidades. Um designer com boa visão espacial e talento consegue introduzir suas modificações de forma harmônica e discreta. A pior coisa é o detalhe modificado saltar à visão logo que olhamos, demonstrando claramente que foi tal peça modificada.

Alguns dos elementos preferidos para renovar a estética dos carros das fábricas são os pára-choques, faróis e lanternas. E sim, a placa traseira que, ano sim, ano não, sobe e desce da tampa traseira para o pára-choque e vice-versa. O que tenho visto atualmente não me agrada muito. Os pára-choques de alguns carros populares e alguns médios que foram redesenhados recentemente ficaram abrutalhados demais, demonstrando falta de sutileza e mau gosto.

Particularmente, não gosto de redesenhos. Preferiria que não existissem. São raros os casos em que um desenho original tenha ficado harmônico após a modificação. Um exemplo que ficou melhor que o desenho original é a frente do VW Polo. A nova dianteira, como a maioria das pessoas comenta comigo, parece que já “nasceu” com o carro, não existe a impressão de gambiarra.

Um ponto positivo vai para as montadoras que são um pouco mais preocupadas com o cliente e modificam a carroceria inteira, como as japonesas aqui estabelecidas. Mesmo que se mantenha a mesma plataforma anterior, redesenhar os painéis de carroceria inteiramente é a melhor forma de harmonizar o styling de um carro.

Mário escreve às quintas


 

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