Tenho um amigo de trabalho que veste totalmente a camisa da reciclagem de qualquer tipo de material. Desde as camisetas que usa, com fibras de tecido feitas a partir de garrafas pet, passando por lápis e canetas com corpo de papel reciclado. Ele até faz às vezes de vendedor de ideias, tentando convencer as pessoas a adotar o mesmo comportamento de vida.
Acho isso sensacional e estou fazendo o possível para chegar perto, guardadas as proporções do bom senso, evidentemente.
Ele, inclusive, tentou me vender a ideia de adotar em alguns equipamentos da empresa uma espécie de “madeira plástica”. Na verdade, é uma imitação de madeira feita termoplástico, polipropileno de alta densidade, reciclado de todo tipo de artefatos de plástico que estariam no lixo ou poluindo algum rio. Gostei muito e prontamente liguei para o fornecedor para saber detalhes para vislumbrar a substituição de madeira utilizada nos equipamentos pela tal madeira plástica.
Logo no primeiro contato, o vendedor me jogou uma ducha de água fria e avisou que o custo era proibitivo, algo em torno de cinco vezes mais caro que a própria madeira. Ele nem tentou me convencer das vantagens de se comprar lixo reciclado absurdamente caro para poupar os recursos da terra e contribuir para melhorar o mundo em que vivemos.
Bom, falta de habilidade comercial à parte, o custo é realmente um empecilho, principalmente para grandes empresas, que compram toneladas e mais toneladas de matéria prima todos os dias. Olhando pelo lado do empresário comum, é difícil encarar a bandeira verde nestas condições.
É uma situação complicada. Como em qualquer ramo industrial, quanto menos se produz, mais caro fica um produto.
E os materiais reciclados têm um agravante: lixo quase sempre é uma salada de materiais orgânicos e inorgânicos misturados. Para separá-los é preciso de gente, muita gente, máquinas para esta separação seletiva e até processos químicos. E não dá para mecanizar tudo porque muita coisa depende de análise visual, coisa que só um ser humano pode fazer. Não há milagre, onde há mais etapas e processos, há mais custo. Por isso, lixo, apesar de lixo, sempre custará caro.
Porém, como tudo neste mundo, aos poucos, todos estão entendendo que do jeito que está, não vai dar. Em algum momento, vai ficar mais acessível trabalhar com material reciclado.
Havendo iniciativa de empresas preocupadas com o futuro e algum tipo de incentivo de governos para alavancar essa quantidade absurda de matéria prima jogada no lixo, fatalmente, o custo do reciclado vai cair a valores aceitáveis e se tornar hábito corriqueiro. Aliás, boa parte do que está misturado ao lixo não tem nada de lixo.
Aço, alumínio, metais em geral, vidros; tudo isso é matéria prima que se pode usar eternamente. Basta reprocessar que voltam ao estado de novos em folha. Aliás, não sei exatamente as porcentagens, mas certamente mais que 60% do aço e vidro que sai das usinas vem de material que estava jogado no lixo ou em sucata.
Ainda há alguns vilões que não são recicláveis, como as resinas termofíxas (poliéster, epóxi etc.), aquelas usadas em carros de fibra de vidro e fibra de carbono. Infelizmente, após o processo de polimerização (endurecimento) do material por reação química não há processo de volta. Não há o que fazer com este tipo de lixo.
Termoplásticos em geral – os derivados de petróleo - são recicláveis mas não são eternos como aço e vidro. Ao longo das reciclagens, vão perdendo suas características originais e se degradando. A esperança são os plásticos biodegradáveis, feitos de fontes naturais, como o milho, que após o uso podem se reintegrar o meio ambiente. Parece que neste ramo da química os avanços são muitos e tem coisa muito boa por vir.
A madeira, embora ainda se desmate as florestas com voracidade e insanidade, pode ser reaproveitada sob muitas formas, é muito versátil e praticamente reaproveitada em tudo. Até mesmo quando não se acha uso para ela, pode virar combustível para usinas.
Os fabricantes de carro, pelo que tenho visto, estão fazendo o que podem na medida do viável. Quase tudo nos carros é reciclável. Plásticos, vidros e metal, em sua maioria, voltam às ruas sob forma de outros carros, ainda mais modernos. Até revestimentos de bancos e portas, que eram de tecidos feitos de fibras plásticas, agora têm fibras naturais em sua composição.
Enfim, o conceito de reciclagem precisa ultrapassar a barreira do “politicamente correto” para se transformar em rotina. E isso não é uma opção. É a condição para a nossa sobrevivência.
Mário escreve às quintas