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Colunistas - Mário Valiati

Mário Valiati

Mario Valiati é graduado em design de produtos pela faculdade UniverCidade e mestre em design, com ênfase em ergonomia pela PUC-RJ. Diferentemente dos consumidores comuns e apaixonados por carros, avalia os veículos sob outros ângulos.

Semelhança?

22/01/2009 - Mário Valiati

Fonte: iCarros

Sempre que assistimos a algum filme ou novela, vemos fotos, mesmo que não saibamos a data em que foram realizados, um detalhe comum entre todos eles nos dá uma dica da época em que foram feitos: os carros. Eles marcam época pelo seu estilo, quase sempre semelhante, seja lá qual marca for.

Do estilo calhambeque do Ford T que foi até próximo dos anos 30; os que tiveram paralamas integrados ao desenho, dos 30 aos 40; as carrocerias do pósguerra já encorpadas em um só bloco, até anos 60. Na década de 70 foi a vez dos quadradões. De lá para cá, houve mudança. O estilo arredondou, surgiu a onda retrô, design inspirado no passado e, atualmente, os detalhes menores, como faróis e rodas chamam a atenção.

Seja lá qual fora a época, o estilo muda aos poucos, sempre com algum fabricante tendo um pouco mais de coragem e ousadia em lançar algo diferente para romper o conceito estabelecido.

Muitas experiências ousadas foram feitas na curta existência do carro. Diversos pequenos fabricantes, e até mesmo grandes, sempre tentam criar alguma coisa radical. Coisas como carros com seis rodas, triciclos com jeito de carro, misto de carro com moto etc.

A profusão de idéias é grande, mas esbarra em um fator limitante: a racionalidade. Nas primeiras colunas, mencionei a rotina de se executar um projeto, no qual primeiro se atende uma função e a estética é resultado disto. Aparentemente, a configuração que existe desde sempre – quatro rodas, duas fileiras de lugares, motor à frente ou atrás, um compartimento de bagagem – satisfaz a maioria esmagadora das pessoas e resolve todo tipo de situação. Tudo que se tente fazer para diferenciar esta configuração fica restrito a excentricidades, veículos especiais, nada que a massa de compradores aprove muito.

Racional ou não, a mesmice, a falta de personalidade, nos deixa entediados. Nada pior que olhar a foto de um carro e confundir ele com vários outros. Quantas vezes vemos aqueles muscle cars americanos e não sabemos diferenciar um modelo do outro?

Outro dia estava vendo o novo Ford Fiesta europeu. Lindo o carro, estética arrebatadora, sem dúvida, mas tem aquela sensação de “já vi isso em algum lugar”. Desde que a Peugeot começou a esticar os faróis dos seus carros, com aquele aspecto de “olho de lince”, aos poucos, todos os carros compactos da mesma classe ficaram todos com o mesmo aspecto.

Todos os mais recentes europeus como Peugeot 207, novo Renault Clio, Chevrolet Corsa, e agora Ford Fiesta, todos ficaram com o mesmo jeitão. Daqui a pouco vai chegar a época, novamente em que não saberemos de qual carro se trata se não vermos o símbolo do fabricante.

Alguns poucos fabricantes tentam alguma reação, como a Audi, na fase do designer Walter de Silva, com sua polêmica e enorme grade frontal, uma alusão aos antigos carros de corrida da Auto Union. Também a BMW, tendo como chefe de design Cris Bangle, começou a ousar um pouco no desenho de detalhes, como lanternas e faróis. Aliás, Bangle foi criticadíssimo – injustamente a meu ver – pelos amantes da marca, que fizeram até abaixo assinado para que ele saísse.

Bom, criticado ou não, as vendas da marca aumentaram e os outros fabricantes aos poucos começaram a repuxar os faróis e detalhes, tal qual ele fez, ao tirar a BMW do lugar comum.
A vida dos designers é meio complicada. Por um lado há o desejo de projetar um carro mais ousado e impactante para romper conceitos. Do outro lado, fica o fabricante, seus departamentos de vendas e marketing, dando a receita de bolo para que as vendas não caiam.

Assim que algum carro com design diferenciado de um fabricante rompe a barreira do comum e faz sucesso, logo em seguida vêm as ordens dos outros fabricantes para que seus departamentos de projetos façam algo “parecido”.

É assim, infelizmente, mas sempre há os designers que estão um degrau acima de talento e genialidade e conseguem, mesmo com tanta limitação, criar algo novo e, novamente, romper a mesmice.

Mário escreve às quintas


 

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