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Colunistas - Mário Valiati

Mário Valiati

Mario Valiati é graduado em design de produtos pela faculdade UniverCidade e mestre em design, com ênfase em ergonomia pela PUC-RJ. Diferentemente dos consumidores comuns e apaixonados por carros, avalia os veículos sob outros ângulos.

Talento é essencial

04/12/2008 - Mário Valiati

Fonte: iCarros

Ultimamente, eu tenho escutado mais freqüentemente a respeito da curiosidade das pessoas sobre a aparência bizarra de um ou outro carro recém-lançado ou redesenhado. Sempre me questionam o talento da turma que faz tais desenhos. Tirando a questão do gosto pessoal, coisa subjetiva como sempre faço questão de frisar, não vou entrar no mérito do talento porque não depende de uma ou duas pessoas para aprovar um desenho de uma grande fábrica. Como em qualquer empresa, quem dá a aprovação final para um produto geralmente é a direção do fabricante. Portanto, tem muita gente no meio do trajeto que vai desde os primeiros rabiscos na folha de papel até a sua aprovação.

Pelos desenhos e projetos conceituais que vejo em algumas publicações que são creditados à turma das montadoras, está claro que boa parte deles aparenta ter talento. O que efetivamente é fabricado, muitas vezes não corresponde ao que aparentemente eles têm capacidade de criar. O porquê de escolhas equivocadas e os terríveis redesenhos que efetivamente estragam carros que eram belos eu francamente não sei e não imagino de quem possa vir o sinal verde para a execução. Seria falta de competência de quem dá o ok final? Sempre que se começa esta conversa em uma rodinha de pessoas vêm à tona assuntos meio controversos sobre a questão do talento do designer e a influência da informática facilitando a inclusão de pessoas num campo que não as pertence.

Acontece que, no tempo em que não havia os programas de computador, só se arriscava na vida de designer quem realmente tinha talento natural. Desenhar “de verdade” era coisa para poucos porque dependia única e exclusivamente da “mão” do sujeito para fazer qualquer coisa. Mas o mundo caminha para frente, nada mais natural que cabeças pensantes buscarem formas de se executar desenhos de maneira mais rápida e automatizada. Principalmente, os desenhos técnicos de fabricação, que precisavam ser refeitos várias vezes e o método antigo de desenho com nanquim e papel vegetal “amarrava” o processo. O surgimento dos programas de computador agilizou os projetos e encurtou prazos de término.

Então, programas de desenhos por computador são ferramentas que facilitam a vida de quem sabe desenhar. E, de uma forma muito rápida, os programas servem para fazer qualquer tipo de desenho, desde os técnicos até os artísticos - passando pelos de edição de imagens - surgiram e se difundiram rapidamente. O problema é que a facilidade de se desenhar atraiu de forma irresistível também quem não tinha talento natural. A facilidade de se construir figuras com desenhos já prontos nos programas (clip arts e blocos) praticamente gerou uma imensa comunidade de “coladores” de figuras que se intitulam “designers”.

Vejam bem, não é uma crítica à informática, ela é apenas uma ferramenta que, na mão certa, melhora ainda mais o trabalho de um profissional de talento. Tanto faz uma folha de papel em branco ou uma tela sensível com uma caneta styllus. A mão que vai traçar a linha é a mesma, não importa o tipo de mídia. O problema é quando se usa de maneira sistemática formas já prontas do computador em detrimento da criatividade pessoal, como muita gente se habituou a fazer.

A profissão de designer exige uma coisa que se chama talento natural e visão espacial. Não basta querer ser, é um dom natural que é lapidado ao longo dos anos nos cursos, os quais refinam o talento do designer e o tornam apto ao mundo comercial e industrial, mas o talento natural já nasce com ele. Embora a informática tenha dado um empurrão colossal à execução de projetos, o designer sempre terá de saber se virar sozinho, desenhando à mão mesmo, à moda antiga, mesmo alguns alunos iniciantes de faculdades achando que isto não é mais necessário.

Dessa forma, existem os designers que são geniais por seu dom natural. As idéias, as formas, fluem com facilidade e apaixonam. Da mesma maneira que existem profissionais medíocres que conseguem lugar ao sol em empresas onde nunca poderiam estar se não fosse por um empurrão tecnológico ou outro tipo de ajuda. Acho que isso ocorre em todas as profissões.


 

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