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Colunistas - Mário Valiati

Mário Valiati

Mario Valiati é graduado em design de produtos pela faculdade UniverCidade e mestre em design, com ênfase em ergonomia pela PUC-RJ. Diferentemente dos consumidores comuns e apaixonados por carros, avalia os veículos sob outros ângulos.

Texturas

04/02/2010 - Mário Valiati

Fonte: iCarros

Textura é uma palavra muito utilizada pela turma que trabalha com arquitetura e decoração. Está presente nos materiais espalhados pela casa, objetos, tecidos, tudo. É percebida tanto visualmente como pelo tato.

Textura pode ser uma trama de tecido, um relevo em uma superfície, que pode ser lisa e brilhosa como também fosca e áspera. A combinação de diferentes texturas – áspero, liso, macio, brilhoso -, pode fazer surgir uma imensa combinação sensorial que nos agrada e satisfaz.

A ausência de textura em um ambiente ou objeto, tende a desvalorizar o seu desenho e deixa de nos atrair. A variedade e combinação é que nos atrai. Embora tenha citado arquitetos e decoradores, a textura faz parte de tudo que nos rodeia, inclusive nosso querido e amado carro.

Estou comentando sobre isso porque a cada dia que passa, vejo mais e mais comentários em fóruns, listas automotivas e comunidades do Orkut reclamando sobre a simplicidade do interior dos carros.

Sim, eu já citei alguma coisa sobre isso na coluna Não basta ser bom, quando comentei sobre a importância da aparência de um produto quando se quer que ele reflita alguma qualidade.

É impressionante a quantidade de pessoas e até mesmo reportagens se referindo ao interior do carro sempre citando o tal “plástico bom ao toque”. Como se o tato fosse sinônimo de qualidade construtiva. O publico em geral e os jornalistas sempre se confundem quando descrevem a característica dos acabamentos.

Qualidade construtiva se refere à precisão nos encaixes das peças plásticas e o material propriamente dito, quanto a sua resistência mecânica – resistência a impactos e riscos -, e ao meio ambiente – raios ultravioletas, calor, frio etc. Então, aí entra em questão a qualidade do molde de injeção e a composição química do termoplástico utilizado.

O tal “bom ao toque” é a textura aplicada ao plástico, que pode ser simplesmente um frisado, imitação de textura de couro ou tecido, e ausência de trabalho, simplesmente acabamento liso, brilhoso ou fosco. O “bom ao toque” também pode ser uma camada de borracha sintética – um elastômero – aplicada sobre a carcaça plástica, dando aquela sensação macia. Também pode ser uma superfície recoberta com uma folha plástica – o popular “vinil” – sobre uma camada de espuma, dando um acabamento realmente acolchoado.

Tendo isso sido entendido, podemos considerar que mesmo os carros mais despojados e simples do mercado podem ter um bom acabamento quando se considera a qualidade construtiva dos plásticos aplicados em seu interior, mesmo sendo pobres em texturas, ou seja, ausência de elementos agradáveis ao toque.

A maioria das pessoas não consegue dissociar falta de textura com qualidade construtiva e acabam, por vezes, desmerecendo um carro construtivamente bem feito de um ordinário, tendo como critério de julgamento apenas a textura aplicada nos materiais. Parece um assunto simples, mas diferencia um produto bom de um ruim de maneira errônea.

Claro, todos nós gostamos da textura aplicada no painel, acabamento de portas e bancos, concordo com a maioria das pessoas: a pobreza na combinação de materiais e texturas nos deixa deprimidos e infelizes com os carros que compramos. Todos nós queremos “sentir”, apalpar, ver combinações diferentes, para nos satisfazer e nos fazer sentir acolhidos.

Vejo também a maioria das pessoas reclamando da falta de “tecido” nas portas de carros até caros. Realmente, é deprimente olhar os painéis de porta em um único bloco plástico com poucos de talhes de trabalho superficial, o simples aplique de um tecido, dependendo da forma que ele é aplicado, já muda a aparência e torna o carro mais aconchegante. Mesmo sabendo que o “tecido”, em grande parte dos carros, seja imitação de algodão ou veludo, nada mais é que plástico sob forma de fios, trançados ou escovados. Aliás, algumas fábricas já estão usando fibras naturais em substituição ao plástico nestes “tecidos”.

O fato é que, um designer talentoso e com bom gosto, pode fazer o mais simples dos carros muito agradável internamente lançando uso das texturas em diversas partes do interior. A chave da questão é a criatividade. Detalhes simples podem realçar e mudar a imagem de um produto pobre para o nobre.

Mário escreve às quintas


 

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