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Colunistas - Mário Valiati

Mário Valiati

Mario Valiati é graduado em design de produtos pela faculdade UniverCidade e mestre em design, com ênfase em ergonomia pela PUC-RJ. Diferentemente dos consumidores comuns e apaixonados por carros, avalia os veículos sob outros ângulos.

Tudo pelo styling?

08/10/2009 - Mário Valiati

Fonte: iCarros

Lembro de ter lido um artigo há algum tempo no qual o editor de um site comentava sobre certos detalhes dos carros atuais que sacrificavam a usabilidade em função da estética. Concordei com a preocupação dele, visto que boa parte destes detalhes comprometem a segurança na direção, mas outros têm lá alguma função, mesmo que não seja o benefício diretamente ligado ao ato de dirigir.

Alguns destes detalhes são o para-brisas demasiadamente inclinado e avançado, “empurrando” para frente as colunas “A”; as vigias laterais traseiras que alguns carros não têm ou que, por força do design arrojado, quase não possuem serventia, e as traseiras demasiadamente altas – no caso dos sedãs -, que dificultam nossa visão traseira. E por aí vai.

É um dilema. Nós, designers, sabemos que o projeto tem de ser primordialmente funcional e a estética uma consequência da função atendida. Mas alguns detalhes, como este do para-brisas inclinado, tem uma função além de nos permitir enxergar, que é de penetrar melhor no ar, reduzindo o arrasto e diminuindo o consumo. E, claro, inegavelmente a silhueta do carro fica mais agressiva e agradável.

O lado negativo é que, quanto mais inclinado o vidro, mais distorcida fica a imagem. Em para-brisas demasiadamente inclinados, como no caso dos esportivos, a luz tem de atravessar um comprimento maior da massa de vidro, distorcendo a imagem significantemente, o que, além de causar desconforto visual, pode ser perigoso. Além do fato de que quanto mais inclinado o para-brisa, maior tem de ser o vidro para manter o mesmo campo visual. O resultado é mais luz solar entrando, mais calor e mais uso do ar condicionado.

Ainda há a questão da coluna “A” que, na maioria dos carros atuais, fica muito avançada, dificultado nossa visão durante uma curva. É um ponto cego em um local muito importante. O remédio seria projetar colunas quanto mais esbeltas fosse possível projetualmente.

Há uma outra questão envolvendo para-brisas, mas, neste caso, seria nas vans, tão em moda nestes tempos. O avanço exagerado do para-brisas para a frente, tornando o carro um monovolume, causa um outro problema que envolve a visão periférica. Quanto mais perto do vidro, mais campo de visão temos, porque nosso cone não permite que enxerguemos tudo quando perto, principalmente as colunas laterais. No caso das vans, com o vidro muito longe, nosso cone visual “encolhe” tudo, deixando à frente da nossa visão o vidro, os montantes e grande parte do painel. Tudo fica diminuto e qualquer cisco no vidro já incomoda a visão e nos causa distração.

Li há muito tempo uma reportagem em que os donos de vans reclamavam de desconcentração, enjoo e se sentiam incomodados com este afastamento do vidro. É um problemão, sem dúvida.

As vigias laterais das colunas “C”, abolidas em muitos carros, ajudam nas manobras de ré e sua falta dificulta bastante a tarefa. O VW Golf sempre teve a coluna “C” desproporcionalmente larga e sem a vigia, até causando um efeito estético discutível. Curioso é que quem a fez desta maneira inicialmente foi Giugiaro e as gerações posteriores mantiveram essa “herança” como forma de perpetuar, negativamente, a personalidade do carro.

É com dor que tenho de concordar que a traseira alta prejudica também a visão da parte de trás. Falo com “dor” porque acho as traseiras altas muito atraentes, ainda mais aquelas desproporcionalmente altas, como a do finado Fiat Tempra e VW Polo Sedan (da primeira geração).

São situações difíceis para os designers das montadoras resolverem, porque têm de escolher entre quais funções necessitam de maior dedicação em função do prejuízo de outras.

Claro, o usuário é sempre a figura central de qualquer projeto e a escolha sempre deve recair nas soluções que privilegiem uma direção segura, com menos chance de causar algum tipo de acidente por falta de visão ou confusão de acionamento de comandos.

O leitor já deve estar torcendo o nariz pensando que vou recomendar que os designers façam, por exemplo, para-brisas mais verticais, como nos carros antigos, não é? Não, exatamente. O problema estético está ligado à cultura; as soluções que surgem vão suplantando as antigas. Um carro que nos era agradável há 20 anos não é mais hoje? Como? Éramos apaixonados e agora não gostamos mais? O carro continua do mesmo jeito que era, não “enfeiou”, mas outras soluções foram surgindo, adicionando elementos que os tornam ainda mais atraentes nos dias de hoje.

Então, o conceito estético que temos atualmente pode perfeitamente dar lugar a outras sugestões muito melhores futuramente, que eliminem estes problemas citados acima e ainda por cima fiquem agradáveis aos olhos. Depende do talento de quem for projetar, como sempre.

Mário escreve às quintas


 

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