J3, X60 ou Tiggo: vale a pena um chinês agora?

JAC e Chery renovaram seus produtos para um mercado que se mostrou exigente. Lifan corre atrás para não perder a onda

23/07/2013 - Thiago Moreno (Fotos: Thiago Moreno e Aline Dumelle) / Fonte: iCarros

O iCarros estava lá quando, em 2008, a Chery apresentou o Tiggo, seguido pelo JAC J3 e pelo Lifan 320. O primeiro apresentava falhas de acabamento como peças soltas. O segundo, associado a um famoso apresentador, tinha um estranho painel de instrumentos com o tacômetro dentro do velocímetro. O terceiro, por sua vez, penalizou clientes com qualidade e pós-venda.

Cinco anos mais tarde, Tiggo e J3 foram renovados, com o compromisso de construção de fábrica no Brasil. A Lifan reorganizou sua estrutura de vendas e se desligou do Grupo Effa Motors para vender seus carros no Brasil. Será, então, que chegou a hora de um chinês entrar na sua garagem? Para saber, é preciso avaliar dois pontos: os carros e as empresas.

O carro pelo carro

O cenário atual dos carros chineses é de reabilitação. Muitos compradores ainda torcem o nariz para os asiáticos. Para vencer este preconceito é preciso olhar o carro pelo o que ele é e a que público se destina, e não por sua origem. Em 2013, tanto o J3 como o Tiggo foram re-estilizados, enquanto o X60 é um modelo completamente novo no mercado nacional.

JAC J3 - O JAC ganhou novos faróis e interior. Os instrumentos passaram a ter boa visibilidade e não há falhas no acabamento que não sejam encontradas também em modelos fabricados por aqui. Só que o carro continua com motor 1.4 que, na verdade é 1.3 (1.332 cc), movido a gasolina. Os 108 cv de potência são acoplados a um câmbio manual de cinco marchas com relações longas e nem os 14,1 kgfm de torque dão conta de mover os 1.060 kg do carro com agilidade. Na cidade, esse problema é minimizado, mas, em rodovias, as retomadas são mais lentas.

Com 1,5 m de altura, 1,7 m de largura e 4 m de comprimento, o J3 tem medidas similares aos dos concorrentes nacionais com o adicional de um porta-malas de 350 litros. Os 2,4 m de entre-eixos deixam o espaço traseiro justo, ideal para até quatro adultos. Porém, como conta com suspensão independente nas quatro rodas, o JAC tem dirigibilidade suficiente para mais potência daquela que seu propulsor oferece.

Por R$ 35.990, vem equipado com direção hidráulica, ar-condicionado, vidros elétricos nas quatro portas, sensor de ré, entre outros equipamentos. Nesta faixa de preço, um Fiat Palio Attractive 1.4 (R$ 34.580) é mais barato, mas ar-condicionado, rádio e acionamento elétrico das travas, vidros e espelhos são opcionais.

Chery Tiggo - O Chery Tiggo também mudou e é no visual externo que tem seu principal trunfo. A frente está moderna, com a inclusão de LEDs para iluminação diurna, com uma grade menos desproporcional. O acabamento interno melhorou, mas ainda há uma profusão de plásticos rígidos e o rádio parece datado.

Mesmo com grandes proporções (1,7 m de altura, 1,8 m de largura, 4,4 m de comprimento e 2,5 m de entre-eixos), o carro não é tão grande por dentro. Quatro pessoas viajam com o mesmo conforto de um hatch compacto. O porta-malas de 435 litros é bom, mas é atrapalhado por uma porta que se abre lateralmente exigindo um grande espaço livre atrás do carro para que seja aberto.

Além do visual, outro diferencial do Tiggo é motor 2.0 de 135 cv, também comete o deslize de ainda não ser flex, mas empurra 1.375 kg sem esforço. Porém, tanta força tem de ser bem mensurada pelo pé do motorista, pois, em curvas e mudanças de direção, a suspensão se mostrou pouco firme, permitindo que a carroceria oscilasse e que o carro mudasse de direção em frenagens ou acelerações bruscas.

O custo-benefício é outro argumento de compra do Chery Tiggo. Por R$ 51.990, é mais barato que o Ford Ecosport de entrada, com motor 1.6, e mais equipado que um Renault Duster básico, que não tem airbags e ABS como o Tiggo. Além disso, o Chery traz vidros, travas e espelhos com acionamento elétrico, ar-condicionado, rodas de 16 polegadas de liga-leve e sensor de estacionamento traseiro.

Lifan X60 - Entre os três, foi o que mais evoluiu. A cabine não ficou longe de falhas, pois ainda tem peças de acabamento com aparência frágil e interior (de couro) que suja fácil. Porém, não há nada no carro que mandatoriamente faça um comprador se afastar. O motor 1.8 somente a gasolina de 128 cv não tem a força do Tiggo, mas não decepciona. Leva bem os 1.330 kg do carro e sua suspensão, mais firme, transmite mais segurança em velocidades mais altas.

Com 2,6 m de entre-eixos, cinco podem viajar sem problemas com espaço farto para as pernas. Mesmo assim, o X60 é mais curto que o Tiggo, com 4,3 m. O SUV tem ainda 1,7 m de altura e 1,8 m de largura. Por R$ 52.777, o Lifan não é um carro barato, mas, além dos equipamentos já presentes nos conterrâneos, tem ainda tela central multimídia com câmera de ré e GPS embutidos e acendimento automático dos faróis.

As marcas

Lifan, Chery e JAC entraram no Brasil de maneiras diferentes. JAC e Chery conseguiram uma boa estrutura em seus primeiros anos. Hoje contam, respectivamente com 70 e 68 pontos de vendas e oficinas autorizadas. Mesmo assim, o interior do Brasil e as regiões Norte e Nordeste são carentes de lojas. As fábricas de ambas, em Camaçari (BA), da JAC, e em Jacareí (SP), da Chery, devem ficar prontas no próximo ano e o plano é aumentar a rede quando as linhas de montagem estiverem operando. A JAC fala em até 100 concessionárias no final de 2014, enquanto a Chery é mais otimista e mira 150 lojas no final do próximo ano.

A Lifan é um caso à parte. Entrou no final dos anos 2000 em parceria com a Effa Motors sem grandes resultados. Hoje, a matriz assumiu a operação brasileira e está renomeando revendedores. Porém, não há planos de fábrica no Brasil, uma vez que o X60 é montado no Uruguai. A Lifan tem apenas 20 revendas espalhadas pelo País, sendo que a capital paulista não conta com nenhuma loja da marca. A mais próxima fica em Osasco (SP), na região metropolitana.

E as peças?

É fácil dizer que a rede vai aumentar e que há estoque de peças. Mas na vida real o que importa é se elas estarão disponíveis para os proprietários. O iCarros pesquisou um kit de embreagem (disco, platô e rolamento) e um espelho do lado direito (carcaça e lente) para os três carros em lojas da JAC, Chery e Lifan nas regiões Sudeste, Sul e Nordeste.

No caso da JAC Motors, o componente mecânico estava disponível para o J3 hatch numa loja da região Sul, enquanto no Sudeste foi pedido de dois a três dias para a entrega. No Nordeste, o maior prazo: doze dias. Para o espelho, o prazo é de sete dias no Sul, mas tanto o Sudeste quanto o Nordeste tinham a peça no estoque.

Já a Chery não tinha nenhum dos dois componentes à pronta entrega para o Tiggo, exceto pela embreagem no Nordeste. O prazo no Sudeste foi de sete a dez dias para a entrega tanto do kit de embreagem quanto do espelho. Já no Sul, demora-se cerca de cinco dias para a entrega. O Nordeste tinha o kit no estoque, mas o espelho demoraria de oito a doze dias para chegar.

O recém-lançado Lifan X60 é um caso mais curioso. Na região Sudeste, próximo ao estoque central da marca em Salto (SP), o prazo foi de doze dias para a entrega das peças. No Sul, tanto a embreagem quanto o espelho estavam disponíveis na loja, enquanto o Nordeste tinha a peça mecânica também, mas o espelho demoraria cerca de dez dias para a entrega.

(Quase) Vale a pena

J3, Tiggo e X60 mostraram que os chineses evoluíram em relação aos primeiros carros que chegaram ao Brasil, mas ainda caminham para serem tão competitivos quanto os nacionais. De 2008 para 2013, a mudança se mostra nítida. Vale lembrar que, quando as marcas de origem japonesa chegaram ao Brasil no início da década de 1990, geraram as mesmas dúvidas que os brasileiros têm hoje em relação aos chineses. O mesmo aconteceu com os sul-coreanos da Hyundai e Kia.

Os chineses foram mais rápidos em sua evolução e estão chegando cada vez mais perto daquilo que os consumidores brasileiros esperam de um carro. Se a sua cidade já tem uma loja de JAC, Chery ou Lifan, o risco vale. Até porque as três mantêm centrais de estoque no País para que as peças não tenham que ser encomendadas na China. Mas, se você mora longe de uma loja das marcas, ter um chinês na garagem ainda é coisa para o futuro que, agora, está menos distante.

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