Porsche 718 Boxster GTS: há esperança para o automóvel

Com a eletrificação e o processo de tornar os veículos autônomos, o futuro pode parecer difícil, mas não impossível

03/01/2019 - Texto e Fotos: Thiago Moreno / Fonte: iCarros

O que você vai ler agora não é só uma avaliação de um esportivo caro e de alto desempenho. É um voto de esperança para um futuro que, oremos, não nos seja proibido o ato de dirigir. O Porsche 718 Boxster GTS é um exemplo de motivo para não desistirmos do carro. Poderia ter escolhido um carro mais em conta que os R$ 480.000 do conversível? Sim, um Renault Sandero RS serviria. Mas não ter capota, eu juro, faz todo o sentido, acompanhe-me.

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Um pouco de contexto

Em algum momento de sua vida você já parou para pensar algo como “nossa, que saudade de soprar um giclê de carburador”? Dificilmente. Talvez um “que saudade de passar marcha”, que até pode ocorrer, mas geralmente é seguido por um “ah, mas com esse trânsito vou de automático”. Tudo isso são reflexos da mudança de nossa relação com os automóveis e o uso que fazemos dele.

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Até agora, foram alterações na forma em que dirigimos e não em nossa relação de uso do automóvel. Até mesmo a eletrificação que já bate na porta com modelos elétricos e híbridos não altera radicalmente o jeito que guiamos. Agora a automação e o compartilhamento dos veículos sim, pois aí a mobilidade vira commodity e o carro vira um artigo de “linha branca”, como geladeiras e fogões, sem uma relação sentimental. Pensem o carro no futuro como as bicicletas dos aplicativos de compartilhamento hoje.

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Então, se você é que nem eu, por pouco que seja, entusiasta dos carros, o futuro não parece muito brilhante. Mas só parece, viu? Pode ficar tranquilo. Pegue a Porsche, por exemplo. Enquanto Macan e Cayenne pagam as contas, a marca consegue produzir outros modelos ao gosto dos entusiastas. Os dois SUVs podem ser elétricos sem problemas, um entusiasta de verdade não iria atrás de um utilitário esportivo para satisfazer seus fetiches automotivos. Inclusive o Taycan, próximo lançamento inédito da Porsche, já será elétrico para atender a esse novo mundo de mobilidade e suas exigências.

Para aqueles 5% de pessoas que vão realmente continuar gostando de dirigir no futuro, os recursos continuarão garantidos para manter a família 911 e 718 (Cayman e Boxster) em linha do jeitinho que gostamos.

O 718 Boxster GTS

Antes que a chefia me mate, seguem alguns dados do 718 Boxster GTS. Trata-se da versão mais performática, forte e cara do conversível de entrada Porsche. Ele pode custar R$ 480 mil, mas a lista de itens de série é extensa, enquanto o desempenho no papel é de deixar um Porsche 911 envergonhado.

Primeiro, as medidas. O 718 GTS tem 4,38 m de comprimento, 1,99 m de largura, 1,27 m de altura e 2,47 m de entre-eixos. Os bagageiros são divididos, sendo um na dianteira com 150 litros e outro, na traseira, com 125 litros, totalizando 275 litros. O peso declarado do carro é de 1.405 kg.

Pode não ser muito leve, mas tem motor para compensar. Atrás dos bancos está um motor 2.5 de quatro cilindros contrapostos sobrealimentado por turbo, capaz de entregar 365 cv de potência e 43,8 kgfm, rodando apenas com gasolina (e das boas). Assim, o 718 Boxster GTS consegue acelerar de 0 a 100 km/h em 4,1 segundos. Algo possível apenas nos carros equipados com a transmissão de dupla embreagem de sete velocidades e o pacote Sport Chrono, como o carro testado. A velocidade máxima declarada é de 290 km/h.

No “pacote Brasil”, lista de itens de série destinada ao mercado brasileiro, vale destacar o ar-condicionado automático de duas zonas, os bancos com revestimento mesclando couro e Alcantara, assim como o interior, sensores de estacionamento, câmera de ré, central multimídia e Apple Car Play (não há opção para Android Auto) e os sensores de chuva e crepuscular.

A parte legal mesmo do pacote nos 718 GTS são os itens que o diferenciam das versões normais do Boxster. Entre eles estão os acabamentos escurecidos para os emblemas, faróis, lanternas e escapamento, além dos bordados “GTS” nos bancos. Mas estes são apenas enfeites. O que interessa mesmo é a suspensão, rebaixada em 10 mm, faróis bi-xenônio, vetorização de torque e o diferencial traseiro blocante. As rodas de 20 polegadas também são exclusivas e calçadas por pneus 235/35 na frente e 265/35 na traseira.

Para manter a chama (azul) acesa

A maioria dos carros feitos hoje são pensados para nos levar do ponto A ao ponto B com o mínimo de dor de cabeça. O que é muito bom, pois, ao contrário de nossos avós, não temos que nos preocupar se a bobina vai esquentar, se tem que levar um jogo sobressalente de velas, o que fazer se o carro quebrar, se vai entrar água quanto chover e por aí vai. Nem mesmo com o caminho temos que nos preocupar, o GPS se encarrega disso.

Enquanto há valor em toda essa nova confiabilidade dos carros, o troco veio na falta de experiências marcantes. Hoje, é fácil viajar 1.000 km de carro sem muita preocupação mesmo em um esportivo puro como o Porsche das fotos. Mas nem tudo é perfeito.

Até mesmo o 718 GTS tem alguns. Como é muito baixo, exige dos joelhos do motorista para entrar e sair. Os bagageiros juntos dão a capacidade de um pequeno hatch, mas são divididos e o dianteiro ainda perde muito espaço por conta do estepe, enquanto o traseiro é raso. Quer ver o motor? Vai ficar querendo, pois a Porsche escondeu bem o propulsor.

Outro detalhe que pode parecer picuinha, mas acontece, é o ronco do motor. Ouvido isoladamente, é até bom, com um grave encorpado que se mantém praticamente até o limite das rotações. É notável que a Porsche dedicou tempo para produzir um bom som de escapamento. A questão é que, comparado ao antigo seis cilindros aspirado, fica parecendo um Subaru de escape aberto.

Mas esse ronco mais simples não impede que a experiência a bordo seja visceral. Ele empurra bem, faz muita curva, mas tudo isso você já meio que espera de um carro com essa proposta e, ainda mais, por esse preço. Sempre digo de qualquer Porsche: o PDK, o câmbio de dupla embreagem da marca, é o mais rápido do mercado nas trocas, mais rápido que notícia ruim até.

O botão rotativo traz quatro comportamentos pré-programados variando do “estou indo na padaria” a “dia de track day em Interlagos”, ajustando firmeza de suspensão e volante, além do tempo de resposta do acelerador e câmbio. Você também pode customizar uma das quatro posições. Ao centro está o Sport Response, que ao ser acionado, aumenta a pressão da turbina por alguns instantes. Ótimo para fazer graça ou impressionar que estiver no banco do passageiro, ou, como diria a Porsche “para ajudar em uma ultrapassagem”, caso você ache os quase 44 kgfm de torque em um carro tão pequeno pouco.

Antigamente os conversíveis tinham alguns problemas e compromissos. Capota aberta gerava muito vento na cabine, fechada não isolava os ruídos externos. Isso sem contar que era preciso parar o carro para abrir ou fechar a capota. Ainda bem que estamos em 2019 e a Porsche já resolveu essa questão. O único compromisso que realmente fica é o acréscimo de peso na comparação com o cupê Cayman por conta dos reforços estruturais para compensar a falta do teto. De resto, dá para pegar estrada de capota baixa sem esforço, ou fechá-la para ter mais paz na cabine. E você pode fazer as duas operações com o carro em movimento.

Mas tudo isso, de novo, é esperado para um carro, principalmente por esse preço. Então onde o 718 Boxster te conquista? No micro e no macro. No micro em detalhes como a chave presencial que pode vir na cor do carro e você ainda precisa coloca-la no contato (do lado esquerdo, claro) e girar para ligar. E na própria cor do carro. Se você comprar um GTS preto ou prata, errou. Miami Blue, decore o nome na hora de pedir o seu. Na minha opinião é a única cor possível para esse carro.

O macro está em toda a experiência que o carro te proporciona.  De que adianta conseguir rodar 1.000 km em um dia se você não se lembra por onde passou ou do que encontrou? O problema é que, se não prestar atenção, você apenas passa pelos lugares.

O grande barato de um conversível é andar com a capota baixada e fazer parte da passagem. Sentir os cheiros dos lugares e estar em contato com ambiente, não apenas vê-lo passando pela janela. Tem dias que o sol vai estar de rachar? Tem vezes que o cheiro vai ser de fumaça de diesel ou esterco de vaca? Vai, mas essa é a vida, ela tem defeitos.

Assim, como nossas ruas. Elas têm tantos defeitos que é mais fácil dizer que colocaram um pouco de asfalto no defeito. Um convite para o massacre de pneus, rodas e suspensão, além de sua coluna. Mas você pode apenas aceitar que as ruas são ruins, dedicar um pouco de atenção e andar de acordo com o que a situação pede. Rodei 80 km na periferia de São Paulo (SP) sem um arranhão nos para-choques ou no assoalho.

Lembram da parte de fazer parte da paisagem? Em um bairro rico, você é só mais um de Porsche. Na periferia, você é atração turística. E esse é o grande barato do 718 Boxster GTS. Se eu me limitasse a rodar em bairros “seguros” ou “bem asfaltados” com a capota fechada, poderia ficar aqui horas falando da resposta do acelerador, da rapidez da central multimídia ou do torque que os motores do limpador de para-brisa geram, mas não teria como lhes dizer a real do carro.

A real do 718 GTS é que, se você tem esse tipo de grana, você quer ir para onde bem entender, na hora que bem entender e não quer ser apenas mais um. Além disso, em um mundo cada vez mais virtual, experiências reais valem ouro. E acumulei muitas ao longo do tempo com o carro.

Meus braços ainda estão queimados do sol e ainda dou risada toda a vez do vendedor ambulante de Pirituba, bairro afastado da capital paulista, berrando “opa, chegou meu carro!”. Lembro também do frentista que pediu uma foto fingindo que estava abastecendo “a máquina” e das crianças na porta da escola municipal berrando ao ver aquele verdadeiro OVNI azul de capota baixa.

Mas o que o mais eu vou lembrar é do segurança do prédio da Porsche que me viu chegando para entregar o GTS com a capota baixa e mandou sem cerimônia: “faz três anos que eu trabalho aqui e nunca vi esse carro chegar com a capota abaixada”. O que significa que esse carro rodou três anos do jeito errado.

Essa é a essência do 718 Boxster GTS: criar experiências ao mesmo tempo que não passa vergonha nem mesmo frente aos superesportivos de hoje. É baixar a capota e ir para onde quiser, quando bem entender. Ser dono de seu destino e criar suas próprias histórias ao invés de curtir a dos outros no aplicativo de fotos. É olhar para as nuvens escuras da eletrificação e automação do futuro, baixar a capota e mostrar o dedo do meio, porque é a sua vida, e se você quer continuar dirigindo, quero ver quem vai ser o primeiro a tentar se opor a isso. Obrigado Porsche por continuar fazendo carros para quem ainda gosta de carros.

P.S.: #volta912 e feliz 2019.

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