Calmon | Transporte subterrâneo é solução definitiva

(Conteúdo Exclusivo) Tudo depende de políticas futuras e de decisões influenciadas por pesados investimentos públicos

29/02/2020 - Fernando Calmon / Foto: Divulgação / Fonte: iCarros

Uma recente pesquisa internacional da Kantar, em 31 metrópoles espalhadas pelo mundo, procurou saber a opinião das pessoas sobre desafios da mobilidade urbana nos próximos 10 anos. Estudos desse tipo dependem de premissas atuais e o modo dos entes envolvidos considerarem o futuro. Existe o cenário ideal e também o possível.

Três cidades destacaram-se pela vontade de mudar: São Paulo, Manchester e Moscou. Moradores da capital paulista estariam dispostos a diminuir em 28% o uso de automóveis como modal de transporte. Mas isso é apenas expressão de desejo, sem certeza de se concretizar. Tudo depende de políticas futuras e de decisões influenciadas por pesados investimentos públicos.

Outros dados das pesquisas apontam: o uso de bicicletas pode aumentar 47% e os deslocamentos a pé, 25%. Porém, é preciso cuidado ao analisar percentuais dessa magnitude. O fato é que estes dois “modais” de deslocamento somam uma participação simbólica nos dias de hoje. Então, em 10 anos o cenário, na prática, vai mudar quase nada. Aqueles percentuais vistosos acabam por se diluir na dura realidade de números e fatos.

Segundo o mesmo estudo, a previsão para daqui a uma década é 49% das viagens serem feitas por ônibus, transporte sobre trilhos (trem e metrô), bicicleta e a bem conhecida sola do sapato. Automóveis e motos particulares ainda representarão 46%, enquanto táxis e aplicativos responderão por 5% restantes.

As patinetes elétricas nem foram objeto da pesquisa. Afinal, são apenas coadjuvantes, pois servem só para pequenas distâncias. A Grow, por exemplo, suspendeu há um mês seu serviço de aluguel em 14 cidades brasileiras, mantendo a iniciativa em São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba. A chamada micromobilidade teve outro revés: a americana Lime, pouco antes, encerrou as operações com patinetes no Brasil e na América Latina, depois de seis meses de atuação.

Essas experiências fracassadas de compartilhamento genérico indicam problemas, quando e se chegarem em maior escala aos automóveis. Depredações, uso descuidado, necessidade de manutenção e limpeza constantes, distribuição geográfica dos veículos e até fraudes são grandes dificuldades para expansão desses serviços.

Também é comum alguns especialistas cunharem frases prontas como “falta coragem para retirar espaço dos automóveis”, “temos de mudar paradigmas”, “transporte individual só traz problemas”. No entanto, São Paulo e outras grandes cidades brasileiras precisam, mesmo, olhar menos os deslocamentos de superfície e mais o subterrâneo sobre trilhos.

Sem expansão das linhas de metrô os congestionamentos tendem a se eternizar. Uma cidade de mais de 12 milhões de habitantes e mais de 20 milhões na região metropolitana, caso da capital paulista, não pode contar com apenas 100 quilômetros de trilhos sob a superfície, seis linhas e 89 estações. Metrópoles de porte semelhante ou menores no exterior construíram redes de até 400 quilômetros com o triplo do número de estações.

Mais triste é constatar a perda de produtividade, de saúde e bem-estar de todos nos engarrafamentos quando, em teoria, parte do problema também colabora para a solução. Pensar que apenas de IPVA cada automóvel paga anualmente 4% do seu valor, seja novo ou usado (até 20 anos), e pouco se faz até para conservar as vias circulantes, o que diria se fosse realmente direcionado para expandir o metrô.

Portanto, esbravejar contra os carros está longe de resolver os problemas de mobilidade.

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