04/10/2021 - Fernando Calmon / Foto: Divulgação / Fonte: iCarros
O aquecimento do mercado de veículos usados gerou distorções tão marcantes e surpreendentes que alguns modelos de até um ano de uso chegam a atingir valores praticamente iguais ou mesmo um pouco superiores aos de um zero-quilômetro.
Porém é preciso ressalvar que se trata de exceções. Está muito longe de se sustentar, além de um período curto e concentrado em modelos importados, que têm precificação em moedas estrangeiras.
Um levantamento feito pelo departamento econômico do iCarros, com quase 300 modelos de várias faixas de preço, entre produtos nacionais e importados anunciados na plataforma, em pouco mais de 5% dos casos se constatou um carro usado a preço semelhante ou pouco superior ao de um novo.
No entanto, há uma boa notícia para melhorar o clima de negócios na compra e venda de veículos usados.
O governo de São Paulo decidiu voltar à alíquota original do ICMS incidente sobre a comercialização em concessionárias e lojistas do setor, a partir de janeiro de 2022.
Em 2020, o imposto havia subido de 1,8% para 5,3% sobre o valor do bem, uma alta nominal de cerca de 200%, o que causou muitos protestos dos comerciantes. Em abril último, a alíquota havia recuado para 3,9%.
Fenabrave (associação das concessionárias) e Fenauto (que reúne lojistas do setor) apontaram que o mercado de São Paulo perderia vendas para os Estados vizinhos e isso ocorreu.
Minas Gerais, por exemplo, passou a liderar o comércio de veículos novos no País, desbancando a posição histórica de São Paulo, quando este aumentou o ICMS sem prazo para redução. Uma migração também foi sentida entre os usados.
Como ainda faltam três meses para o retorno da alíquota “normal”, as distorções continuarão a ocorrer. Cidades fronteiriças dos Estados do Rio de Janeiro e do Paraná da mesma forma viram suas vendas aumentarem.
Automóveis, além de veículos comerciais leves e pesados, são bens duráveis e de valor elevado. Majoração de imposto sempre perturba, repercutindo nos preços e concorrência.
O mercado brasileiro de carros usados tem acelerado e crescido muito além do que se esperava desde o início da pandemia de Covid-19, no primeiro trimestre do ano passado. Depois de quase dois trimestres com lojas fechadas, estimava-se forte reação, mas esta foi bem além.
Muitos tiveram a mesma ideia e ao mesmo tempo: trocar de carro. O desequilíbrio puxou os preços de uma forma só vista antes em períodos de altíssimo descontrole inflacionário. Ilídio dos Santos, presidente da Fenauto, resume o cenário atual:
“Os preços dos usados aumentaram 40%. A oferta de novos foi sacrificada porque as fabricantes tinham e continuam a ter dificuldades na produção. A opção era partir para um seminovo. Quem possuía cotas contempladas em consórcio e aguardava um período melhor ou não tinha pressa, entrou no mercado. Inclusive a procura por veículos acima de 12 anos subiu. Se alguém está pensando em vender seu carro usado, essa é a hora. Mas temos que admitir: os preços são artificiais, não vão se manter. Até meados de 2022 a situação deve voltar ao normal.”
Ilídio também vê com preocupação o aumento do IPVA em 2022 em razão da forte valorização deste ano.
“O índice de inadimplência por falta ou atraso no pagamento do imposto estadual, dividido em 50% com os municípios, já é bem grande. Como a alíquota não se alterou, esse cenário estará bastante agravado no próximo ano. Conversamos com o governo de São Paulo e explicamos que o percentual de 4% do IPVA para todos os veículos até 20 anos de uso pode aumentar a inadimplência a patamares nunca vistos.”
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