Como é o dia a dia com um Toyota Yaris Hatch XS?

Uma semana de convivência com o dois volumes compacto em uma rotina urbana comum à maioria dos brasileiros

24/09/2022 - Henrique Koifman/ RF1 / Foto: Divulgação / Fonte: iCarros

De casa para o trabalho, do trabalho para o supermercado, de lá para cá… A rotina da maioria dos motoristas brasileiros pode variar de endereço, mas dificilmente escapa desse tipo de itinerário. Foi principalmente nesse ambiente que avaliei o Toyota Yaris Hatch XS. Conto aqui como foi.

Quinta-feira, 15/09

Retirei o Yaris HB (de hatchback) da concessionária, limpinho e cheiroso, abastecido com gasolina. Ajustei o carro para o meu “tamanho” – foi fácil, mas senti falta de poder mexer no volante também em profundidade. E, logo de cara, tive de enfrentar uns 15 minutos de congestionamento. E chuva.

No anda-e-para mais lento, o câmbio automático CVT mostra, de uma só vez, seus lados positivo e negativo. Ao mesmo tempo em que não exige movimentos – ou mesmo pensamentos –, afinal, é automático, parece levantar os giros do motor mais do que seria necessário para tão pouca velocidade.

E isso implica ouvir o ronco do 1.5 de 16 válvulas roncar mal-humorado, cada vez que o para-choque do carro à frente se afasta. Mais adiante, descobri que o capô não tem forração acústica, o que provavelmente melhoraria esse incômodo. Até porque, no geral, o carro é bem silencioso.

E macio. Para um compacto, mesmo “premium”, sua suspensão absorve bem os muitos remendos do asfalto. Os bancos, que nesta versão XS combinam tecido com couro ecológico, contribuem para isso. São extremamente confortáveis, como depois comprovaria em trajetos mais longos.

Sexta-feira, 16/9

Uma das coisas boas de se usar um hatch compacto é… ele ser compacto. É, isso é meio óbvio, mas foi muito fácil e rápido entrar e sair da minha vaga de garagem, que exige alguma manobra e inclui um longo e estreito corredor para se chegar à rua, com esse Yaris, muito melhor que a média.

Já me acostumei com o ronquinho “estacionário” do CVT no trânsito – e, nos cerca de 5 km que me separam do escritório, há muitos trechos de reme reme matinal, sinais vermelhos e coisas do gênero. Com um bom podcast na multimídia (conectada ao meu smartfone) e paciência, vou tranquilo.

No final do expediente, começo da noite, resolvo dar um rolê pela Zona Sul carioca e pego as pistas expressas do Aterro do Flamengo, onde a máxima permitida é de 90 km/h. Aproveito para fazer retornos e retomadas – meu parâmetro nos test-drives que tenho feito aqui para o iCarros.

Como em seu irmão sedã, que eu já experimentara – e sobre o qual você pode ler aqui –, este Yaris realmente fica mais interessante quando se aciona a tecla “sport”, meio escondida na parte de baixo do painel, do lado esquerdo do volante.

Isso porque esse modo de condução mantém os giros do motor mais altos, contornando, de certa forma, a principal desvantagem do motor aspirado de 16 válvulas do Yaris em relação aos 1.0 de alguns de seus concorrentes – como o VW Polo. 

“Cheio”, o motor oferece bom torque sem que se precise pisar tanto no acelerador e o resultado disso é que o carrinho fica bem mais esperto e gostoso de dirigir. Não que se transforme em um pequeno esportivo, mas deixa para trás uma boa parte de suas reações burocráticas habituais.

Nos retornos, curvas mais fechadas de 180º entre as pistas, que neste horário são bem movimentadas, percebo que a maciez da suspensão faz com que o carro se incline um pouco, mas dentro do razoável e seguro. E também que ele acelera e retoma rápido o suficiente para essas manobras.

Sábado, 17/09

Aproveito a manhã ensolarada para sair e fotografar o Yaris no Centro do Rio, que, de algo caótico, se transforma em local quase bucólico nos finais de semana. Enquadrando o carro, percebo que suas linhas estão praticamente inalteradas desde o lançamento por aqui, em 2018. 

Elas têm personalidade, sem dúvida. A traseira é bem marcante e, por isso, torna – pelo menos para o meu gosto – ele mais bonito que o sedã. Mas, em comparação com concorrentes de desenho mais recente, essa longevidade toda começa a cobrar seu preço e, ainda que tenha recebido retoques, o Yaris está perdendo um pouco daquela mística do carro novo.

Também no sábado, vou às compras e noto que os 310 litros disponíveis no porta-malas, de assoalho um pouco mais alto – e acessível – que a média, são suficientes para minhas necessidades mais habituais. Por outro lado, ao estacionar, à noite, sinto falta de faróis de LED, mais eficientes.

Domingo, 18/09

No começo da tarde, banco o motorista para a família. Deixo a namorada em um encontro com amigos, um filho em outro. E, em seguida, busco meus pais para um passeio mais longo. Assim, rodei com 2, 3 e 4 pessoas a bordo, incluindo algumas subidas pelo caminho.

O espaço para os passageiros atrás, para um carro dessa categoria, é ok. Dois viajam bem ali, mas, apesar de não haver nenhum ressalto no assoalho, o baú do console central se projeta na direção do banco, tornando quase inviável que alguém com mais de, digamos, 10 anos, viaje ali.

Nosso passeio incluiu um trecho razoável de vias expressas e até rodovia – pegamos a ponte Rio-Niterói para ver o pôr-do-sol do outro lado da Baía de Guanabara. E, também, alguns trechos de trânsito mais pesado. No total, rodamos perto de 100 km.

Segunda-feira, 19/09

Chove de novo. E o humor da quase primavera serve para que eu perceba que, quando as gotas são mais fortes, dá para ouvi-las muito bem batendo no teto do Yaris. A forração interna é bem-feita, e mesmo com plásticos dominando quase todo o panorama, todos os pontos em que se encosta o cotovelo – nas portas dianteiras e traseiras – são acolchoados.

Um pouco mais de trânsito no caminho e, desta vez, desvio por uma rota alternativa, que me faz subir um morro com piso de paralelepípedos. E, novamente, a maciez da suspensão mostra seu valor, absorvendo bem as vibrações e, assim, diminuindo também o ruído.

Na parte mais íngreme da descida, uso as borboletas do volante (paddle shifters) para reduzir as marchas e colocar o freio motor para trabalhar. Os engates são bem suaves e até rápidos para esse tipo de sistema. Aliás, os freios do carro também funcionam muito bem e passam confiança.

Terça-feira, 20/09

Aproveito o final do expediente para mais um rolê. Dessa vez, passo por um bairro recheado de quebra-molas (lombadas) e asfalto muito maltratado. A altura do carro em relação ao solo é grande o suficiente para não preocupar. Rodo mais 50 km, entre vias expressas, avenidas e ruas secundárias, em plena hora do rush, trânsito “médio”.

Consulto o computador de bordo e descubro que, até qui, já rodei 267 km com o Yaris, 10 horas e 40 minutos ao volante, a uma velocidade média de 25 km/h e com um consumo médio de 12,7 km/litro. Nada mau.

Quarta-feira, 21/09

Meu último dia inteiro com o carro. Aproveito para rodar um pouco mais, aumentando o trajeto para o trabalho. E, na volta para casa, faço uma “barriga” de 20 km no caminho, percorrendo toda a orla da Zona Sul carioca, com seus incontáveis – e totalmente dessincronizados semáforos.

Me sinto totalmente familiarizado com o Yaris, numa intimidade que já me faz relegar seus defeitos – como o já mencionado painelzinho de comando dos modos de condução e acionamento de sistemas assistivos, dificílimo de se manusear. Até o ronquinho do CVT no trânsito me dá certo aconchego.

Faço as manobras para “encaixá-lo” em minha vaga de garagem quase que no automático e é nesse momento que percebo o quanto ele foi agradável de conviver. Sem grandes emoções, sem um visual que o destaque na paisagem, sem recursos ultratecnológicos em um painel com cara de videogame.

Mas extremamente dócil, prático e previsível – no melhor sentido da expressão –, o carro foi ótima companhia durante a semana e dá uma sensação de que poderia ser da família. Ao desligar o carro, o painel resume a última viagem do dia: distância, 20,7 km; tempo, 51 minutos, consumo, 13,3 km/litro!

Quinta-feira, 22/09

Saio cedo para devolver o Yaris à concessionária e, para variar, está chovendo e o trânsito está particularmente horroroso. No total, rodei pouco mais de 320 km. Entrego a chave (presencial, para partida por botão) algo melancólico, pensando que o carro de aplicativo em que embarcaria pouco depois dificilmente seria tão “gente boa” quanto esse.

Não sei o que Freud diria disso – acho que ele nunca dirigiu ou teve um carro. Talvez algo como “transferência”, quando atribuímos qualidades de alguém a outra pessoa; ou de uma pessoa para um objeto, no caso, um carro. 

Um pouco de contextualização de mercado

Vá lá que o Yaris não tenha assim atributos tão fortes para despertar paixões, mas, em seu segmento de compactos hatchs “premium”, pelo menos até o final do primeiro semestre deste ano, ele era o preferido entre os consumidores, ocupando a 22ª posição no ranking geral de veículos, segundo a Anfavea.

À frente, por exemplo, do VW Polo (o 47º) e, por enquanto, também do “patrício” Honda City hatch (o 27º). E, também, de seu irmão sedã (o 29º). 

Nessa versão XS, ele custa hoje a partir de R$ 102.990,00 (preço base Brasília, site da montadora em 23/9/22). É menos que o pedido pelo novo Honda City Hatchback – que, por outro lado, é bem mais atualizado e servido de recursos diversos. 

E mais ou menos o mesmo que o recém-remodelado VW Polo Comfortline, este um pouco mais parelho com ele, mas também mais atualizado, com câmbio automático tradicional (e não CVT) e outros mimos tecnológicos.

E então?

Entre seus concorrentes mais diretos, o Yaris Hatch XS talvez seja o mais conservador, tanto em termos de visual, quanto de performance – embora neste último quesito, tenha um virtual empate técnico com seu “conterrâneo” Honda City, que também tem motor aspirado 1.5 e câmbio CVT.

Se por um lado ele não se destaca na multidão, pois suas linhas são as praticamente mesmas há tempos, por outro, ocupa uma posição até confortável de mercado, num nicho específico de consumidores que não se rendem aos SUVs e miram principalmente na praticidade e confiabilidade.

E nisso, sua marca é das mais respeitadas em termos de chancela. Embora ocupe apenas a quarta colocação em volume de vendas por aqui (dados do primeiro semestre de 2022, quando emplacou 90.617 carros), com 10,64% do mercado, ela se posiciona como “premium” e extremamente desejada.

Daí poder cobrar um pouco mais por seus modelos – caso do Yaris que, por tudo o que mencionamos neste texto, se usasse outro emblema sobre o capô, dificilmente sairia tanto das concessionárias pelo preço que custa. 

Mas esse custo-benefício vai além da simples comparação técnica. E, levando tudo isso em conta, o Yaris Hatch XS acaba sendo, sim, uma boa opção para o uso urbano, prático, com consumo camarada e, sem dúvida, grande capacidade de não estressar seu motorista.

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